Mais um extraordinário contributo do Carlos Oliveira, do blog AstroPT, para a compreensão, apreensão e valorização do conhecimento, em particular o conhecimento científico. Além disso, fornece uma reflexão interessante sobre o valor monetário do acto de divulgar Ciência. Está escrito em forma de desabafo, mas a minha cumplicidade com a emoção e razão do Carlos é total.(...) a marca “ciência” deveria ter um valor enorme. No entanto, o que se passa é o contrário. A marca “ciência” e a marca “conhecimento”, nada valem para as pessoas. Quem se aproveita desta mentalidade de “qualidade paga-se” são os "pseudos" e os os auto-denominados "famosos".
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O valor do conhecimento.
http://dererummundi.blogspot.com/2010/12/o-valor-do-conhecimento.html
December 22 2010, 4:37am | Comments »
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Os ladrões genéticos
http://dererummundi.blogspot.com/2010/05/os-ladroes-geneticos.html
Há não muito tempo atrás houve uma corrida para sequenciar o genoma humano. Tal como a maioria das corridas foi desigual. De um lado um consórcio público internacional essencialmente britânico e norte-americano, mas que envolveu universidades e grupos de investigação do Japão, França, Alemanha, China, Índia, Canadá e Nova Zelândia. Este consórcio público, chamado Human Genome Project, foi inicialmente liderado por James Watson (o da estrutura do ADN em 1953) e começou a trabalhar a partir de 1990 para ler os três mil milhões de pares de bases contidos em 23 cromossomas. Na pista do lado, e partindo atrasada (apenas começou em 1998) uma empresa privada americana chamada Celera Genomics, liderada por um investigador e empreendedor chamado Craig Venter. Para a história fica que chegaram ao mesmo tempo à meta, com a publicação simultânea em 2000 de ambas as sequências rascunho nas revistas Science e Nature. O consórcio público fica muito mal nesta história da lebre e da tartaruga. Mas essa é uma história mal contada.O consórcio público começou por desenvolver as metodologias para sequenciar o genoma humano num tempo útil e não ao longo de várias gerações. Essa tecnologia não existia em 1990: não se sabia bem como pegar num ADN tão grande e parti-lo em bocados complementares mas com pequenas sobreposições sem perder nada (pois não é possível sequenciar mais de 1000 bases de cada vez e lembremos que estamos a falar de um total de 3 000 0000 000 de bases), não existiam os programas de computador suficientemente fiáveis para ler as sobreposições de sequências de vários fragmentos e ordená-las de forma correcta e os aparelhos de sequenciação eram bem mais limitados. Foi preciso construir livrarias genéticas, ou seja porções de ADN que se sabe muito bem a que sítio do genoma é que pertencem. Para desenvolver estes métodos o consórcio público avançou em paralelo com a sequenciação de genomas mais pequenos, como o da mosca do vinagre. E isto permitiu desenvolver processos fiáveis e robustos que permitiram sequenciar a totalidade do genoma humano com um grande rigor.A Celera Genomics entrou na corrida com um outro método, chamado Shotgun sequencing, ou método da caçadeira, que basicamente consiste em partir o ADN em bocados aleatórios, sequenciar o que se encontra e depois tentar a partir de sobreposições dos vários bocados identificar quais são contíguos e reconstruir a sequencia completa original usando programas de computador. Isto resulta bem para genomas pequenos, mas para o genoma humano não resulta tão bem: a Celera Genomics completou o genoma de Craig Venter (coisa pouco narcisista e egocêntrica, o genoma do consórcio público é de múltiplos dadores) usando a sequência do consórcio público para preencher os bocados que lhe faltavam.A Celera Genomics também entrou na corrida com outras motivações: pretendia efectivamente patentear genes e condicionar o acesso à sequência. Acesso parcial gratuito a grupos de investigação sem fins lucrativos, mas o genoma completo seria a pagar ou mediante requisões e acordos de confidêncialidade. Numa outra fase queria "dar um avanço" de seis meses no conhecimento da sequência aos clientes pagantes, sobre o resto da comunidade científica. Claro que tudo isto é eticamente inaceitável. Patenteiam-se invenções, não o conhecimento. Há quem ache que a sequência do ADN humano é uma invenção divina, mas certamente não é uma invenção de Craig Venter.Hoje a sequência do ADN humano é de livre acesso muito graças ao esforço do consórcio público que divulgava os resultados da sequenciação no final de cada dia, à medida que os ia obtendo, fazendo cair a sequência no domínio público.Mas, para os media e generalidade do público, a história que ficou foi a de que a Celera Genomics fez em dois anos o mesmo que o consórcio público fez em dez, e que talvez tenha havido um desperdício de fundos públicos numa estrutura ineficiente quando comparada com a agilidade de uma única empresa privada.Mas Craig Venter não desistiu de roubar património genético, usando as chamadas leis de propriedade intelectual. Nos anos seguintes, entre outras coisas perscrutou o fundo dos mares à procura de organismos desconhecidos com alguma utilidade para patentear. E agora surge com o progresso notável da vida artificial. E é verdadeiramente notável, reconheçamos: introduziu um material genético completamente sintético dentro de uma bactéria, que começou a expressa-lo e se transformou nessa outra bactéria sintética. Fazendo uma especulação de ficção científica, e tendo em conta a sequenciação recente do genoma do Neandertal, conceptualmente poderíamos pensar num Neandertal sintético a andar entre nós. Claro que há obstáculos técnicos grandes (as bactérias são seres unicelulares sem um compartimento para o material genético e têm um único cromossoma) e gritantes questões éticas, naturalmente. Os media mais uma vez bateram palmas aos sucessos de Craig Venter. E este mais uma vez submeteu uma montanha de patentes. O que é bastante perigoso, porque o ADN sintético pode ter sido feito em laboratório, mas usando a sequência de uma série de genes que não foram inventados pelo Craig Venter e que existem em organismos naturais.Há a ideia de que as patentes servem para proteger os inventores e criadores. Não servem. Servem para que as invenções inovadoras apenas possam ser exploradas por quem tenha um exército planetário de advogados para travar batalhas legais nos tribunais de todo o mundo. Por isso o mercado farmacêutico mundial está na mão de meia dúzia de empresas. Também há a ideia de que esta protecção das patentes estimula a inovação: isso é mais um mito ou uma convicção subjectiva do que um facto demonstrável. Há alternativas e limites às patentes.E mesmo considerando as patentes como necessárias, o conhecimento não se protege, partilha-se (claro que há excepções bem conhecidas, nomeadamente no campo militar). Mas uma coisa é conhecimento fundamental, outra é uma aplicação tecnológica para produzir um bem ou serviço.
May 25 2010, 7:23am | Comments »
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Ciência, sexo e dinheiro
http://dererummundi.blogspot.com/2009/11/ciencia-sexo-e-dinheiro.html
A propósito da vida dupla da doutora Magnanti, noticia recente acerca de uma cientista que terminou o doutoramento em Londres trabalhando como call-girl em part-time, algumas reflexões sobre ciência, sexo e dinheiro. Há pelo menos um exemplo nacional conhecido, a Leonor Sousa, a nossa bióloga stripper (na fotografia em cima), embora com as devidas diferenças.Na realidade os cientistas, especialmente os jovens, andam à rasca de dinheiro. Um excelente artigo publicado na PLoS sobre como o sistema de financiamento da ciência e dos cientistas transforma os jovens investigadores em burocratas, até ao ponto em que arranjar dinheiro é a sua principal ocupação ficando para trás... a ciência! Desinvestimento esse, que a médio prazo acaba por traí-los num contexto de investigação ultra-competitivo:“What a strange business this is: We stay in school forever. We have to battle the system with only a one in eight or one in ten chance of getting funded. We give up making a living until our forties. And we do it because we want to help the world. What kind of crazy person would go for that?”—Nancy Andrews, Vice Chancellor for Academic Affairs and Dean of the Duke University School of MedicineTexto completo aqui.E a opinião de António Câmara, CEO da Ydreams, acerca da situação dos bolseiros de investigação científica em Portugal e da importância dos bolseiros do Grupo de Análise de Sistemas Ambientais (GASA) da Universidade Nova de Lisboa como geradores do conhecimento que deram origem à Ydreams e a outras empresas:
November 20 2009, 12:41am | Comments »
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Os 20 anos da "Robótica"
http://dererummundi.blogspot.com/2009/11/os-20-anos-da-robotica.html
A revista "Robótica" é uma das mais antigas revistas técnico-científicas portuguesas, que eu tenho o gosto e orgulho de servir, como director, desde 1998-99. Faz agora 20 anos de vida. A sessão de comemoração do vigésimo aniversário decorre no dia 13 de Novembro de 2009 em Coimbra (Pavilhão Centro de Portugal).Convite: http://www.robotica.pt/mesa_redonda_20anos.htmlO novo site da revista é: http://www.robotica.ptA versão electrónica da revista está online no mesmo sítio.:-)
November 3 2009, 3:30pm | Comments »
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«O homem pensa»
http://dererummundi.blogspot.com/2009/10/o-homem-pensa.html
Do livro de Daniel Barenbiom - Está tudo ligado: o poder da música -, recentemente editado em Portugal, reproduzo um excerto onde, com base em Espinosa, filósofo a que o De Rerum Natura tem dado atenção (ver, por exemplo, aqui, aqui e aqui), se explica, de modo muito claro, o significado da "liberdade de pensamento", bem como a sua importância no tempo presente, nas mais variadas circunstâncias da nossa vida."Li Espinosa pela primeira vez quando tinha treze anos. É claro que, na escola, estudávamos a Bíblia – que para mim é a obra filosófica suprema. Todavia, a leitura de Espinosa abriu-me uma nova dimensão, e é essa a razão da minha continuada dedicação às suas obras. Um simples princípio de Espinosa, «O homem pensa», tornou-se para mim um quadro de referência existencial; o meu exemplar da sua Ética já está coçado e com os cantos dobrados. Durante anos levei-o comigo nas minhas viagens, e nos quartos de hotel ou nos intervalos dos concertos deixava-me absorver por muitos dos seus princípios. Ler a Ética de Espinosa é o melhor exercício intelectual que se pode fazer, acima de tudo porque Espinosa ensina, de forma mais completa que qualquer outro filósofo, a liberdade radical de pensamento.Esta acepção de liberdade de Espinosa não é uma rejeição da disciplina em favor da arbitrariedade de pensamento, mas sim um processo activo. Quanto mais capazes de determinar os nossos próprios pensamentos – aliás, de causar os nossos próprios pensamentos, criando assim a nossa própria experiência da realidade – mais possível é atingir a autodeterminação, a verdadeira liberdade.Na moderna civilização ocidental é muito fácil a uma pessoa julgar-se livre, com tantas opções de escolha que tem – a escolha de onde viver, o que ler, o que quer ver na televisão ou na Internet – quando na verdade este tipo de realidade pressupõe uma consciência aguda dos nossos apetites. Sem ela somos meros escravos desses apetites e não temos o poder de moldar as nossas próprias ideias e acções.Esta consciência tornou-se para mim uma espécie de auto-análise pré-freudiana; Espinosa ajuda-me a ver-me, e àquilo que me rodeia, com objectividade. É isto que pode tornar a vida suportável, mesmo em situações de sofrimento; os ensinamentos que encontramos na Ética ajudam-nos a ver o mundo como um lugar governávelO próprio Freud escreveu um dia numa carta a Bickel: «Reconheço que devo muito aos ensinamentos de Espinosa.» Em contrapartida, Espinosa admite, prefigurando a análise freudiana, que não podemos controlar completamente as nossas emoções (proposição 7.ª da 4.ª parte), escreve: «Uma emoção não pode ser reprimida nem removida senão por uma outra emoção contrária àquela que se quer reprimir, e mis forte do que ela.» Portanto, não basta compreender intelectualmente que o ciúme, por exemplo tem um efeito negativo sobre o organismo; tem de ser contrariado por uma emoção igualmente forte – talvez a generosidade ou o amor. Todavia, a faculdade de criar um equilíbrio emocional está dependente da consciência intelectual do problema. Desta forma Espinosa exige a integração de todos os aspectos humanos para se chegar à verdadeira felicidade.Também na música o intelecto e a emoção caminham de mãos dadas, tanto para o compositor como para o executante. As percepções racional e emocional não só não estão em conflito uma com a outra como, pelo contrário, cada uma guia a outra com vista a alcançar um equilíbrio e compreensão em que o intelecto determina a validade da reacção intuitiva e o elemento emocional fornece ao racional a dimensão de sentimento que confere humanidade ao todo. Há músicos que se deixam cair na convicção supersticiosa de que uma análise demasiado profunda da peça musical destruirá neles a qualidade intuitiva e a liberdade de execução, confundindo conhecimento com rigidez e esquecendo que a compreensão racional não só é possível mas absolutamente necessária para que a imaginação tenha pulso livre.O grande Votaire acusou um dia Espinosa de «abusar da metafísica». Hoje em dia, porém, o carácter irredutível da metafísica é mais importante do que nunca. Pensar de forma metafísica significa, epistemologicamente, ir para além do físico, do tangível e do literal para compreender a essência de uma coisa e a sua relação com todas as outras coisas, quer se trate de uma pessoa, de um governo, de uma voz numa fuga de Bach ou de um facto da história. De facto, o pensamento libertado tornou-se uma das nossas liberdades mais preciosas, numa época em que os sistemas políticos, os condicionamentos sociais, os códigos morais e o politicamente correcto controlam frequentemente o nosso pensamento.”Rerência bibliográfica completa: - Barenboim, D. (2009). Está tudo ligado: o poder da música. Lisboa: Bizâncio, páginas 51-53.
October 1 2009, 3:16am | Comments »
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A decadência das virtudes
http://dererummundi.blogspot.com/2009/05/decadencia-das-virtudes.html
Texto de João Boavida, antes publicado no jornal As Beiras, e que deve ser lido na sequência de um outro: Crise moral e sociedade débil."A natureza não nos oferece a virtude: ser bom é uma arte."SénecaA moral tem vindo a subjectivar-se, isto é, a ficar na dependência dos sentimentos individuais, da vontade de cada um e, portanto, a perder muito da sua componente social e colectiva.Um forte sintoma disso é a decadência das virtudes. A própria palavra virtude perdeu qualidade, deixou de ser respeitada, ou, digamos, de se dar ao respeito. Talvez as duas coisas. Quase já não se usa, a não ser para lhe acentuarmos o ridículo ou a falsidade. Interpretações que lhes foram sendo dadas para denunciar e pôr a ridículo os que se faziam de virtuosos para enganar os outros. A nossa literatura, desde Gil Vicente, está cheia desta gentinha virtuosa mas sem moral. A muita virtude de certas pessoas, em Eça de Queirós, por exemplo, é sinónimo certo de beatice, ou obtusa, ou sonsa, às vezes pérfida. Ou seja, falsa e exterior, não compreendendo o valor do que diz, nem fazendo o que diz fazer.Numa sociedade espiritualmente punitiva e temerosa, e socialmente encostada à subserviência e à dependência, a hipocrisia é a atitude que alimenta virtudes. Que, por isso, são geralmente falsas. São o modo dos devassos e corruptos serem aceites, sem o merecerem, ou de usufruírem da liberdade de manobra para as suas vilanias. Mas sem precisarem do sacrifício e da coragem que a qualidade moral exige, e podendo, assim, fugir às merecidas punições. Felizmente tivemos um Eça que mostrou a miséria de que é feita esta gente.Porém, se muita desta fauna queiroziana, sobretudo na política, se mantém actual, noutros aspectos já não. Ridicularizar as virtudes, sobretudo espirituais, com a laicização generalizada que se operou na sociedade portuguesa, em muitos aspectos positiva, é hoje um tiro sem alvo pois não corresponde já à mentalidade dominante.Penso que podemos dizer que a real decadência das virtudes e do próprio conceito, que pode entender-se como consequência do esboroamento das morais autonómicas, na linha kanteana, e da fragmentação ética da pós-modernidade, está a revelar-se muito perigosa pela alegre e despreocupada entrega de cada um a si mesmo.É pois necessário revalorizar as virtudes enquanto qualidades, sem destruir o contributo de Kant, que nos emancipou. Precisamos de recuperar do desvio semântico que a palavra virtude sofreu. A terapêutica queiroziana foi eficaz, mas agora convinha-nos voltar ao sentido original da palavra virtude.Virtude vem do latim virtus, que significa força interior, energia. A evolução do sentido para o domínio moral revela muita da dimensão social – e pessoal – dos comportamentos e das atitudes, e também a infinidade de aspectos que a força interior contém. Ou seja, não uma moral onde cada um decide o que é bem e mal, ou o que deve fazer, mas sim o que é entendido pela maioria, como sendo o bem e o mal. E, portanto, o que deve fazer nas situações a partir de quadros de dever e de qualidade na acção.Mas, se as virtudes, como qualidades objectivas, são referências claras que orientam a acção e a educação, não deixam de ter um grande potencial de aperfeiçoamento subjectivo. E de poderem ser postas ao serviço de uma moral autonomizadora.Precisam as virtudes de ser sentidas como qualidades, para merecer o nosso respeito e sacrifício, mas é para isso que funciona a educação, que nos faz ver o valor intrínseco delas e a necessidade pessoal e social de as seguir. Se conseguirmos compreender e sentir o valor e a necessidade, pessoal e social, de palavras como prudência, temperança, coragem, fidelidade, justiça, generosidade, humildade, simplicidade, gratidão, boa-fé, compaixão, etc., e se começarmos a educar - e a ser educados - nestas qualidades, solucionaremos imensos problemas.Imagem: Fresco de Giotto di Bondone (1267-1337). Alegorias das virtudes e dos vícios (Cappella degli Scrovegni, Pádua).
May 17 2009, 4:48am | Comments »
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Crise moral e sociedade débil
http://dererummundi.blogspot.com/2009/05/crise-moral-e-sociedade-debil.html
Um texto de João Boavida, antes publicado no jornal As Beiras, sobre a necessidade de se (voltar a) encarar a educação/ensino da moral, tal como se encara a educação/ensino de outras áreas de saber.“Duas coisas inspiram à mente uma admiração e um temor tanto maiores quanto mais vezes e mais detidamente reflectimos sobre elas: o céu estrelado por cima de nós e a lei moral dentro de nós”.Immanuel Kant (1724-1804)..Já foi dito, mas não é de mais repetir: a crise actual, mais do que económica e financeira, é moral. Pode falar-se de crise moral em muitos sentidos, mas há um que em geral não reconhecemos hoje como um perigo. Mas é. Refiro-me à tendência para um excessivo subjectivismo moral. Ou seja, a ideia hoje dominante de que as questões morais são exclusivamente subjectivas e pessoais. O que conta é o que cada um sente em relação a situações e problemas, e as boas atitudes são as que cada um entende como tal. E como também muitos consideram que os valores dependem da aceitação ou rejeição individual, cada um acha-se com direito a ter os seus, ou até a não ter nenhuns. São assim, consideradas, como legítimas, quase todas as atitudes, desde que, com justificações pessoais, as achemos correctas.Esta tendência é uma evolução dos filósofos iluministas do século XVIII, sobretudo Kant, que promoveram a autonomia dos cidadãos relativamente às tradicionais tutelas de natureza religiosa e política. Fizeram-no em nome da Razão, e na suposição de que todos os homens tinham uma capacidade racional que era suficiente para captar, no seu intelecto, a lei moral. A razão era capaz de descobrir, em cada um, a lei e a norma. E como a Razão era universal e idêntica em todos, os seres humanos tinham, através da Razão, acesso a essa lei. E a que obedeceriam pela vontade de serem justos e não pelo medo do Inferno ou a esperança do Paraíso. Foi um movimento ideológico e filosófico da maior importância, que tornou o mundo anterior incompreensível para os novos, e o posterior irreconhecível pelos os velhos. Mas originou um enorme progresso humanístico e científico, porque proporcionou, a cada indivíduo, com o estatuto de pessoa moral autónoma, o direito de decidir pela sua consciência, podendo assim ser pessoalmente responsabilizado. As consequências, a nível jurídico, foram também enormes.Esta evolução, condição da vida moral autónoma, caiu, porém, numa subjectividade e individualização que desvalorizou a dimensão cultural e social da moral. A qual determinou, durante milénios, leis e normas e, portanto, a avaliação dos comportamentos individuais. O nosso tempo tem vindo a desprezar esta dimensão da vida moral e a referida mentalidade já ataca o domínio penal e jurídico.Mas desprezá-la tem graves consequências. As comunidades são, e sempre foram, condição para uma vida sociável e sustentável do ser humano. E o facto de ter havido nelas, sempre, normas a respeitar, devia levar-nos a pensar que é uma dimensão não desprezível, porque é a condição do funcionamento social e, em última análise, da nossa própria vida. O facto de muitas vezes serem injustas não altera a sua indispensabilidade.Por razões de dialéctica sociocultural e psicológica, o nosso tempo abomina a educação como socialização, as morais de base social e a regras que os costumes nos impõem. É compreensível que estejamos ainda na fase de reagir a este domínio, porque durou milénios e foi quase sempre excessivo. Mas a dimensão social nos comportamentos, e estes em função das normas sociais, não pode suspender-se nem desaparecer. Pode e deve melhorar-se para mais justiça e igualdade, mas nunca desprezar-se, porque não podemos viver sem ela.Face à desvalorização que se sente nas conversas e nas atitudes, e à crise mundial que é o resultado da individualismo levado ao extremo, e do desprezo pelo comum, e pelo comunitário como valor; face à moleza das leis sociais e das sanções, consequência já dessa mentalidade, é necessário revalorizar a dimensão social das normas morais. Mesmo que não seja por ora um discurso politicamente correcto, é bom começar a pensar nisso..João Boavida
May 7 2009, 3:18am | Comments »
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