A verdade existe? Eis uma pergunta recorrente em áreas que se pautam pelo modo de pensar objectivo, rigoroso, científico. Mais: trata-se duma pergunta que fez nascer esse modo de pensar e que não o deixar sossegar. Sem ela e sem a tendência para responder que sim, que existe verdade (ainda que esta, quando formulada, não se deva declarar como definitiva), seria impossível termos esse modo de pensar.Deve acrescentar-se que este modo de pensar - desejavelmente presente na ciência, mas também na justiça, entre outras áreas - tem os seus critérios. Um deles é que a noção de verdade, apesar de ter sido inventada por pessoas, não decorre do entendimento contextualizado de algumas pessoas. É preciso que as conjecturas avançadas para explicar algo, além de respeitarem as regras da lógica, sofram a "prova de fogo" da realidade. Nesta prova, todas as pessoas, independentemente do contexto social, cultural, étnico ou outro a que pertencem, poderão chegar às mesmas conclusões, ou, então, duvidar delas ou mesmo refutá-las, caso os factos indiquem nesse sentido.Ainda que muitos cientistas, epistemólogos e outros pensadores dissertem sobre este assunto, os que se pautam pelos princípios iluministas ou, na expressão do filósofo inglês T. Nagel, neo-iluministas, têm por mais ou menos pacífico o que acabei de referir. É certo que há os pós-modernos que, não abdicando da tal contextualização, afirmam a total impossibilidade de aceder a uma verdade que vá além daquela que é localizada no tempo e no espaço, e sempre por referência à subjectividade de quem a declara... E, se alguém a declara, então, passa a existir com certeza, a verdade. Ou melhor: "a verdade para..." Como qualquer argumento esbarra na opinião do outro ou de um grupo, não há muito a fazer para prosseguir qualquer raciocínio...Este último entendimento de verdade, pelas inconsitências várias que lhe têm sido apontadas, parece não ter grande esperança de vida. Engano: quando tudo leva a crer que esmoreceu e que não transitou para o século XXI, vê-se ressuscitar neste artigo, naquela conferência, numa outra entrevista...Foi o que percebi mais uma vez recentemente e desta vez não foi no campo da educação. Lembrei-me, naturalmente, duma passagem do Imposturas Intelectuais de Alan Sokal e Jean Bricmont, que, a seguir trancrevo, de modo que o leitor perceba melhor do que falo:“Eis o contexto: em 1996 a Bélgica viveu o drama das crianças desaparecidas e assassinadas, no seguimento do qual foi criada uma comissão de inquérito a fim de examinar as deficiências verificadas durante a investigação policial. Duas pessoas — um polícia (Lesage) e um magistrado (Doutrèwe) — foram inquiridas para saber se a primeira tinha ou não entregue o dossier ao magistrado, que este negava ter recebido. No dia seguinte um antropólogo da comunicação, Yves Winkin, professor da Universidade de Liége, foi entrevistado por um dos principais jornais belgas (Le soir, de 20 de Dezembro de 1996). Foi-lhe colocada uma questão:Questão: O confronto [entre Lesage e Doutrèwe] foi estimulado por uma procura drástica da verdade. A verdade existe?Resposta: (…) penso que todo o trabalho da comissão se baseia numa espécie de pressuposto, o de que existe, não uma verdade, mas a verdade, que, se se pressionar bem, acabará por surgir. No entanto, antropologicamente, só existem verdades parciais, partilhadas por um número maior ou menor de pessoas, um grupo, uma família, uma empresa. Não existe verdade transcendente. Não penso por isso, que o juiz Doutrèwe ou o polícia Lesage estejam a esconder algo: ambos falam a sua verdade. A verdade está sempre ligada a uma organização em função dos elementos considerados importantes. Não é de estranhar que estas duas pessoas, representando cada uma universos profissionais distintos, exponham uma verdade diferente cada uma. Dito isto, no contexto de uma tal responsabilidade pública, penso que a comissão só pode prosseguir no sentido que actualmente prossegue».Estamos perante um exemplo notável das confusões criadas pelo vocabulário relativista (…). Acima de tudo, o objecto do inquérito é um facto material, o envio de um dossier (poderá pensar-se que este foi enviado e se perdeu no caminho, mas isto também é uma questão factual bem definida). É claro que o aspecto epistemológico é complexo: como é que a comissão vai saber o que realmente se passou? Mas isto não impede que haja uma verdade: ou o dossier foi enviado ou não foi. Não se compreende muito bem o que se ganha com a redefinição do termo verdade (mesmo que seja parcial) para que passe a significar simplesmente «uma crença partilhada por um número maior ou menor de pessoas (…) estamos perante uma situação que roça o absurdo: ambas as pessoas falam a mesma língua, não moram a mais do que uma centena de quilómetros de uma comunidade belga francófona (…). O problema não é, manifestamente, o da impossibilidade de comunicação: as duas pessoas em confronto compreendem perfeitamente o que se passa e, sem dúvida, sabem qual é a verdade. Simplesmente uma delas não está interessada em revelá-la. Mesmo na hipótese de as duas falarem verdade, ou seja, no caso de o dossier se ter perdido, o que é logicamente possível (ainda que improvável), ainda assim não faz sentido dizer que «ambas falam a verdade». Quando se chega a conclusões práticas, felizmente, o antropólogo admite que a comissão «só pode conseguir», quer dizer, procurar a verdade. Tanta confusão para se chegar a esta conclusão.”Referência completa: Sokal, A. & Bricmont, J. (1999). Imposturas intelectuais. Lisboa: Gradiva, páginas 103-104.
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A verdade existe?
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December 28 2010, 6:14pm | Comments »
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Por uma república refundada
http://dererummundi.blogspot.com/2010/09/por-uma-republica-refundada.html
Segundo dados do Eurostat (relativos a 2008) o PIB per capita (PIB PC) português é cerca de 72% do PIB PC médio europeu (EU 27, 100%). Há cerca de dez anos atrás era de cerca de 80% da média comunitária. Considerando as actuais taxas de crescimento, a projecção para 2028 mostra que o PIB PC português será 56% da média comunitária e Portugal será o último da tabela de todos os países europeus. Ou seja, seremos o país mais pobre da comunidade, e continuaremos a divergir da média comunitária. Para convergir e atingir a média comunitária em 2028, Portugal teria de inverter a situação e crescer em média 3.86% ao ano, ou seja, passar de taxas de crescimento médias inferiores a 1% para taxas superiores a 3%. Como conseguir este objectivo? A única forma parece ser resolver de forma decisiva e sustentável as desvantagens que nos são apontadas, e que se relacionam com a atitude dos portugueses (qualidade da formação secundária e superior, qualidade da formação científica), capacidade empreendedora das empresas e instituições (investimento privado em R&D, patentes), flexibilidade do mercado de trabalho e das leis de trabalho, tamanho do mercado interno (o espaço lusófono tem de ser aproveitado), justiça, aspectos organizativos (serviços públicos, simplificação de procedimentos), e disponibilidade de recursos humanos avançados (baixa disponibilidade de cientistas e engenheiros no mercado, o que é ainda agravado pela tendência crescente de saída dos melhores quadros para o estrangeiro – brain drain). Apesar disto tudo, o país insiste em ser Lisboa e arredores. Concentra a sua capacidade de investimento na capital do país, com duplicação de infra-estruturas e meios, desmerecendo e desprezando o resto do país que empobrece gradualmente. O centro de Portugal tem um PIB per capita de 62% da UE, ou seja, inferior à média nacional. Aliás, só a região de Lisboa tem valores superiores à média europeia (104% da UE), apesar de estar gradualmente em queda.É necessário uma nova atitude. Firme. Em defesa dos interesses do país. Chamem-lhe o que quiserem: desafio, desobediência civil, ..., revolução. Não tenho medo das palavras. Não tenho medo de as pronunciar. Precisamos de refundar a nossa república, cumprir Portugal (como se prometeu na revolução de Abril), criando, de uma vez por todas, um país verdadeiramente democrático, equilibrado, solidário, exigente com a aplicação dos seus recursos, consciente dos problemas do mundo e da necessidade de definir uma estratégia nacional de desenvolvimento. Participada pelos cidadãos. Responsável.É muito claro que aqueles que elegemos para nos governarem só entendem estas palavras e atitudes fortes. É evidente que o sistema político que construímos desde a revolução de 25 de Abril de 1974 não funciona: os dados mostram que caminhamos para o abismo. É preciso que os cidadãos se apercebam disso. É necessário reformar, revolucionar de novo, desta vez bem. Colocar o foco no país de Norte a Sul, apostando decisivamente num desenvolvimento equilibrado que tire partido das potencialidades de todas as regiões. Esse princípio deveria estar na constituição da nova república. É preciso mudar, refundar a nossa república. Esta chegou ao fim, por maioria de razão.Uso, como se fossem minhas, as palavras de Francisco Sá Carneiro: "Cabe-nos cada vez mais dinamizar as pessoas para viverem a sua liberdade própria, para executarem o seu trabalho pessoal, para agirem concretamente na abolição das desigualdades. Para isso mais importante que a doutrinação, é levar as pessoas a pensarem, a criticarem, a discernirem"J. Norberto Pires(Editorial da revista "Robótica", Nº80, Agosto de 2010)
September 1 2010, 9:49am | Comments »
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Assim é complicado!
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Crónica "Olhares da UC" publicada no diário As Beiras de 19 de Abril de 2010:Portugal é um país pequeno e periférico, deprimido, que não se mobiliza e vive sem esperança. Os dias sucedem-se uns após outros e nada acontece. Os jornais, rádios e televisões repetem até à exaustão as mesmas notícias.Portugal é um país parado no tempo, moribundo, constituído por pessoas exaustas, que não acreditam no país e respectivos governantes, e que não perspectivam nenhum tipo de futuro. E o problema é que isto é assim há muito tempo, há demasiado tempo. Somos um povo apático, rezingão e quezilento, que deixa as coisas andar e se acomoda a esta mediocridade que é a vida nacional. A frase que mais ouvimos, mesmo daqueles que sabem que temos de mudar urgentemente este estado de coisas é: “isto funciona assim, demora tempo a mudar; não é assim, de um momento para o outro”. Sim, deixamos que se instalasse a ideia que qualquer coisa, qualquer transformação, demora imenso tempo. É isso que pretende a mediocridade que deixamos que tomasse conta do país e das instituições, e que detesta o sucesso, a diferença, a atitude independente, a competência e a qualidade. Para se perpetuar no poder promove tudo o que é corrupção e amiguismo, pelo que as pessoas sentem-se subjugadas pensando que de pouco vale reclamar, discutir e exigir.Só assim posso compreender a passividade com que encaramos o anúncio dos vencimentos dos CEO das empresas do PSI20. Por princípio não tenho nada a ver com os vencimentos dos outros. Isto é:1. Não tenho inveja;2. Não penso que são todos uns vigaristas;3. Penso que se deve ganhar tendo por base o que se produz;4. Não penso que para funções iguais deve existir vencimento igual, isto é, o vencimento tem de ter por base o mérito;5. Penso que é necessário reter os melhores em Portugal.No entanto, considero verdadeiramente escandalosos os vencimentos publicados dos gestores das empresas do PSI20:a) 3,1 milhões de euros para o CEO da EDP (703 mil euros de vencimento fixo e o restante de bónus anual);b) 2,5 milhões de euros para o CEO da PT (1 milhão de bónus);c) 1 milhão de euros para o CEO do BES;d) 727 mil euros para o CEO do BPI;e) etc., etc., etc.Segundo o Jornal de Negócios, a relação entre os vencimentos médios dos administradores e os salários médios dos trabalhadores em cada empresa do PSI20 é a seguinte:Jerónimo Martins - 60,9 vezesPT - 51,8Sonae - 42,5Zon - 28Mota-Engil - 27,6EDP - 27,1Semapa - 20,9Brisa - 18,8Portucel - 16,7Galp Energia - 16,1Banco Espírito Santo - 14,5BPI - 13BCP - 11,2Sonaecom - 8,1REN - 6,7Sonae Indústria - 6,4Isto é inaceitável. Um escândalo. A demonstração de que somos um país sub-desenvolvido, sem princípios de solidariedade e onde não existe respeito por quem trabalha.Eu considero que num país JUSTO, SOLIDÁRIO e EVOLUÍDO, a relação máxima entre os salários médios dos administradores e os salários médios dos trabalhadores não pode ser superior a 10. E isso deve aplicar-se a todo o país. Ou seja, só as empresas Sonae Indústria, REN e Sonaecom do PSI20 passam neste critério.Lamento mas não consigo perceber como é que numa organização o sucesso pode ser somente de meia dúzia. O sucesso é de todos, desde o administrador de topo ao funcionário da limpeza. E todos têm de ganhar com o sucesso da organização, pois todos contribuem, dentro das suas funções, para os resultados obtidos. É uma questão de princípio.Escandalosos e incompreensíveis estes vencimentos.É necessário poder manter os melhores em Portugal. Mas não a qualquer preço, muito menos se para isso tivermos de ceder nos princípios e no dever de zelar por um desenvolvimento equilibrado e sustentável de Portugal.De uma vez por todas: os vencimentos devem ser atribuídos pelo mérito, estar ligados aos resultados da organização e não deve existir uma relação superior a 10 entre a média dos salários dos administradores e a média dos salários dos trabalhadores.Levantar o país significa dar alento aos portugueses, com exemplos e com uma elite que seja uma referência e uma boa influência. Convencê-los de que vale a pena, que o mal que nos aflige tem solução e que Portugal não está condenado a definhar rumo à irrelevância se não tivermos medo, se formos fortes, decididos, atentos e exigentes.J. Norberto Pires
April 19 2010, 11:22am | Comments »
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Ensaio sobre a Verdade V
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September 23 2009, 3:20pm | Comments »
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Ensaio sobre a Verdade III
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September 23 2009, 3:01pm | Comments »
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Ensaios sobre a verdade II
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37 Portanto, Pilatos disse-lhe: “Pois bem, és tu rei?” Jesus respondeu: “Tu mesmo estás dizendo que eu sou rei. Para isso nasci e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que está do lado da verdade escuta a minha voz.” 38 Pilatos disse-lhe: “Que é verdade?”E, depois de dizer isso, saiu novamente para os judeus e disse-lhes: “Não acho falta nele..."Evangelho de João
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September 23 2009, 8:38am | Comments »
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Ensaio em torno da maioria e da verdade
http://terrear.blogspot.com/2009/03/ensaio-em-torno-da-maioria-e-da-verdade.html
Um excerto da crónica de hoje de Miguel Santos Guerra:¿Hasta qué punto nos dejamos arrastrar por las mayorías?, ¿hasta qué punto somos capaces de defender nuestra posición en contextos adversos?Parece que es el sentido común el que nos hace pensar como todo el mundo. Le oí decir a Eduardo Galeano hace unos días en una entrevista que un psiquiatra amigo suyo definía así la salud mental: “Es un estado transitorio que no presagia nada bueno”.Existen mitos y errores tan extendidos que todo el mundo acepta como verdades indiscutibles. Tiene que ver lo que digo no sólo con la forma de pensar y de hablar. También sucede con la forma de actuar. ¿Dónde va Vicente?, se pregunta nuestro refranero. Donde va la gente, contesta. Hay quien no sabe divertirse solo, quien no es capaz de organizar por propia iniciativa una actividad. Lo que le arrastra es la masa, la mayoría. Se da por hecho que algo que leen muchos no puede estar mal escrito. De ahí la capacidad de arrastre de los best sellers. De que algo que eligen muchos no puede estar mal elegido. Como si lo que la mayoría hace estuviera, per se, bien hecho. De ahí aquel significativo exabrupto que aparecía en una pintada: “Millones de moscas no pueden equivocarse: come mierda”.El criterio se puede aplicar a casi todos los fenómenos de una sociedad masificada. Una sociedad en la que el individuo se diluye en la masa. Así, por ejemplo, se considera que un programa bueno es aquel que ven más personas, que un buen periódico es aquel que tiene más lectores y que un buen producto es aquel que es consumido por más clientes. Lo de las moscas.Fonte
March 14 2009, 8:22am | Comments »
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Sentido(s)
http://terrear.blogspot.com/2009/02/sentidos.html
"À filologia compete com efeito fixar o sentido literal de um enunciado, mas não tem qualquer poder sobre o sentidos segundos. Pelo contrário, a linguística ocupa-se não a reduzir as ambiguidades da linguagem, mas a compreendê-las e, se é lícito assim falar, a instituí-las". Roland Barthes. Crítica e Verdade.
February 24 2009, 5:23am | Comments »
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Contra o sentido único, a verdade única, a objectividade única
http://terrear.blogspot.com/2009/02/contra-o-sentido-unico-verdade-unica.html
February 15 2009, 11:34am | Comments »
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2009: Desejos de um bom debate
http://dererummundi.blogspot.com/2008/12/2009-desejos-de-um-bom-debate.html
A habitual crónica dominical de J. Norberto Pires no "Jornal de Notícias" de hoje: A coisa que mais sinto em Portugal é a ausência de debate: parece que estamos numa fuga permanente à realidade. Os portugueses não se envolvem nas opções tomadas para o país, alheando-se de forma preocupante dos caminhos que seguimos e dos objectivos a atingir. Mesmo em momentos eleitorais assiste-se à total ausência de confronto de ideias, onde o importante é a imagem dos candidatos, sempre fiscalizada pelos comentadores profissionais e jornalistas (com foco na postura, na gravata e na pose), e os "soundbytes" que emitem, rejeitando aqueles que tentam formular um raciocínio minimamente coerente. Nada nos discursos para as televisões e jornais tem mais de meia dúzia de palavras, e nunca ultrapassa os três itens.As eleições são mais ou menos como o campeonato de futebol. Existe o Benfica, o Sporting e o Porto, e a grande maioria vota como se estivesse a puxar pelo seu clube e pela nova estrela que o clube contratou. Os outros clubes pouco contam, servem simplesmente para animar o campeonato. Depois a estrela contratada como sendo o próximo Eusébio, afinal não marca golos e é meio coxo. Mas, para os fervorosos adeptos, basta que ele acerte na bola uma vez sequer para que o delírio se instale nas bancadas. E todos os jornais e televisões do “desporto” mostram a jogada fabulosa em que a nossa estrela, por uma vez na vida, acertou na bola. Mas ninguém repara para onde ela foi. Isso não interessa nada, a estrela é mesmo fabulosa.Depois, ano após ano, ficamos muito tristes quando, por momentos, a seguir a um jogo internacional, nos apercebemos que afinal somos o que somos: uma equipa da 3ª divisão europeia com a mania que vai ganhar o troféu internacional, se Deus quiser. Logo a seguir é prometido o próximo Eusébio e... “agora é que vai ser”, “vamos a eles que até os comemos”. Olhar no espelho sempre foi muito difícil, e o melhor é ignorar e acreditar nos vendedores de ilusões.Na vida política e social em Portugal tudo é um pouco assim. A estrela do nosso clube promete o que sabe que não pode cumprir. Promete não aumentar as cotas aos sócios, mas falha esse golo logo no primeiro minuto do jogo de abertura, promete mais empregos no clube, mas a bola nem pela linha final sai, promete reformular a escola de formação do clube, mas não conta com os jovens que formamos e arranja um conflito enorme com os treinadores das camadas jovens, promete uma revolução no estilo de jogo, mas sai um mal amanhado “plano técnico” escrito nas costas de um envelope (que entretanto perde...), promete métodos de treino inovadores e nacionais, e afinal sai o velho “Fernão” que já é refugo nas Américas sendo aqui apresentado como “nosso”, promete revolucionar a equipa fazendo treino com os melhores clubes americanos, esquecendo que o nosso campeonato é outro e as regras são diferentes. Sem os resultados anunciados, diz que são dele os resultados dos outros. Ora bolas!Eventualmente, no final do campeonato, nós os adeptos vamos eleger uma outra estrela. Que fará da mesma maneira, falhando os golos, perdendo os jogos, e afundando cada vez mais o nosso clube.O meu desejo para 2009: Bom debate. O nosso clube precisa!J. Norberto Pires
December 28 2008, 9:37am | Comments »
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