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Filosofia das artes e das ciências

http://dererummundi.blogspot.com/2008/10/filosofia-das-artes-e-das-cincias.html

O Carlos chamou a atenção para um livro apetitoso de Maria Helena Santana, e citou passagens que me parecem muito interessantes, por duas razões.Primeiro, porque a autora parece identificar a ciência com a verificação. Efectivamente, muitas pessoas têm uma noção verificacionista da ciência; não sei se é o caso da Helena. Esta concepção de ciência, penso, está errada e quem o demonstrou foram precisamente os verificacionistas: os positivistas lógicos. Uma concepção diferente da natureza da ciência encontra-se no capítulo com o mesmo título do livro A Última Palavra, de Thomas Nagel. Concordo com o autor que o que conta na ciência e faz dela ciência não é a verificação, mas a justificação — e a justificação por via da verificação é apenas uma das modalidades da justificação.Segundo, a Helena parece defender que a literatura ou as artes são contribuições significativas para o nosso conhecimento das coisas. Discordo desta ideia; a literatura e as artes dão-nos apenas um conhecimento aprofundado de coisas como estruturas narrativas, cores, formas, estruturas sonoras, etc. Não encontro na arte quaisquer ideias sofisticadas sobre assuntos como o sentido da vida, a natureza da realidade ou do pensamento, a existência de Deus, etc. A ideia de que há insights fundamentais nas artes sobre estes temas parece-me insustentável.A posição da Helena parece exprimir uma concepção filosófica interessante da arte: a ideia de que o valor da arte tem de residir no seu contributo cognitivo geral. Isto parece-me insustentável. A arte pode ter valor por outras razões que não as estritamente cognitivas, e mesmo que tenha valor cognitivo, pode ser sobre aspectos muito delimitados da realidade, com os que referi. Ninguém verdadeiramente interessado num qualquer problema relativo à realidade ou ao nosso conhecimento dela fica a saber grande coisa lendo literatura, poesia ou vendo pinturas ou ouvindo música. E por que haveriam as artes de ter de dizer coisas interessantes sobre estes temas?Note-se que seria na verdade muitíssimo surpreendente que um romancista, um pintor ou um músico pudesse realmente ter qualquer coisa de sofisticado para dizer sobre estes temas, dado que não os estuda sistematicamente como um filósofo ou um cientista. Só a ideia romântica de que os artistas têm um acesso privilegiado à verdade porque foram tocados pelos deuses pode sustentar a ideia de que se encontra na poesia ou na pintura algo de sofisticado sobre a natureza da realidade ou do conhecimento ou qualquer outro tema cognitivamente alheio aos próprios materiais da arte (cores, formas, sons, ritmos, narrativas, etc.). Isto parece concordar aliás com a prática das pessoas, que aparentemente não vão ler romances, ouvir música ou ver pinturas para descobrir se há deuses, qual é a origem do universo ou qual é o caminho da felicidade, mas fundamentalmente para terem um certo tipo de fruição estética que parece ter valor em si, independentemente de as artes terem ou não qualquer papel cognitivo amplo. Penso que esta fruição estética envolve aspectos cognitivos relacionados com o conhecimento de formas, sons, narrativas, etc., mas apenas nesse aspecto há cognição na fruição da arte. Sobre este e outros temas da filosofia da arte, vale a pena ler este livro.

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