Post convidado da professora Maria do Carmo Vieira, de quem já aqui publicámos um extracto da entrevista que deu à revista "Notícias" do "Diário de Notícias" e do "Jornal de Notícias":Contagiados pela febre de catalogar e incapazes de pensar pela sua própria cabeça, têm-me descrito, uns, como «lamentavelmente fascista», outros, como «sonsa comunista», outros ainda, como estando «a soldo do PSD para destruir o governo socialista», e há também quem me descreva como «agitadora catastrofista», ignorando, sobretudo, estes últimos, que são eles próprios os agitadores ao pretender limitar a liberdade de pensamento e de expressão, que em boa-hora o 25 de Abril nos trouxe. Esquecem ainda que «as ideias têm asas e ninguém as pode impedir de voar», recuperando as palavras do realizador egípcio, recentemente falecido, Youssef Chahine, no seu inesquecível filme «O Destino».Por conhecimento de causa, continuarei a afirmar que o nivelamento por baixo, que oficialmente se instituiu no ensino (lembremo-nos das palavras recentes do Dr. Jorge Pedreira a propósito do ensino em Portugal ser demasiado exigente), faz com que os alunos deixem de acreditar nas suas próprias capacidades, perdendo a vontade e a perseverança, que acompanham habitualmente o desenvolvimento de todo o estudo. É uma forma deselegante, no mínimo, mas também muito elitista, de dizer antecipadamente aos alunos, sobretudo aos da Escola Pública, que são uns incapazes. Com perversa doçura, qual droga que vai corroendo, entrega-se como oferta aos alunos «o êxito a que têm direito» (palavras do coordenador do GAVE) que assim se viciam na crença de que tudo se consegue sem trabalho. E, no entanto, inteligentemente reflectiu Albert Einstein: O único sítio onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário.Inebriados pelo facilitismo e estimulados pelo passa palavra de «em pouco tempo faz-se...» (e completamos a frase, o 2º ou 3º ciclos e o secundário) correm também muitos daqueles que, por motivos vários, interromperam, ou tiveram de interromper, os seus estudos, a inscrever-se nos cursos das novas oportunidades, não compreendendo, muitos, ou sequer admitindo, que os objectivos delineados assentam não na preocupação de formar, mas de atingir metas estatísticas.É por ter conhecimento de como se processa este ensino «pronto a vestir», desenhado na base de um suposto «quadro de competências», que põe de lado a noção de programa, transformando-o em pózinhos de saber disto e daquilo (as tais aprendizagens ou saberes ) e que rejeita o diploma, agora tornado certificado («validação das aprendizagens»), de coisa nenhuma, que desejo transcrever as directivas comunitárias, as quais calarão quem tem vindo a insultar e a desmentir os que criticamente têm escrito sobre o assunto, nomeadamente o professor Rui Baptista. Com efeito, cedeu-me uma colega do 1º ciclo textos vários, que colegas franceses, por sua vez, lhe enviaram, os quais demonstram que tudo é orquestrado do exterior, de forma a formatar na obediência e na ausência de espírito crítico. Lendo-os, compreendemos o manifesto desprezo pelas disciplinas de Humanidades, o aligeiramento da matéria científica, o facto de a Escola servir quase exclusivamente para responder ao mercado de trabalho, o porquê da conhecida e divulgadíssima expressão «aprender a aprender», a defesa exaustiva da autonomia das escolas, ou ainda o espírito que rege a avaliação de desempenho dos professores, centrado nos bons resultados com os seus alunos, mediante o cumprimento acrítico das ordens impostas, num convite descarado à desresponsabilização do acto de ensinar. Mas debrucemo-nos, então, sobre os cursos ditos de «novas oportunidades», cuja planificação se inscreve no «Programa de trabalho, educação e formação para 2010», ditado pela Comissão Europeia, e que preconiza que «Os Estados membros devem acelerar o ritmo das reformas do seu sistema de educação e de formação (...)», e daí o célebre «Debate Nacional sobre Educação», cujas áreas temáticas se definiram tendo em conta essas mesmas reformas. Em lugar, por exemplo, de programas, privilegiam-se agora «oito competências-chave» que assegurarão a «Educação e a formação ao longo da vida». Eis as suas designações: Comunicação em língua materna; Comunicação em língua estrangeira; Cultura matemática e competências de base em ciências e tecnologia; Cultura numérica; Aprender a aprender; Competências interpessoais, interculturais e Competências sociais e cívicas; Espírito empresarial; Expressão cultural.De um folheto de uma Escola de Lisboa, divulgando o trabalho de um «Centro de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (CRVCC)» (ou seja, o lugar ao qual se devem dirigir os candidatos às «novas oportunidades»), transcrevo, não só o texto «Objectivos: «O sistema RVCC é uma oferta do Ministério da Educação que lhe dá a possibilidade de reconhecer, validar e certificar os conhecimentos e as competências resultantes da experiência que adquiriu ao longo da vida», mas também a «Validação»: «Realiza-se perante um júri que valida as competências demonstradas por si, no decorrer do processo de Reconhecimento, de acordo com o Referencial de Competências-Chave. Decalcadas das competências-chave, anteriormente enumeradas, surgem as matérias dos referidos cursos das novas oportunidades: «Linguagem e Comunicação; Matemática para a Vida, Tecnologias de Informação e Comunicação e Cidadania e Empregabilidade».Não virão agora certamente desmentir a existência de um sistema perverso, cozinhado pela Comissão Europeia, que finge formar e educar, num manifesto desrespeito pelo papel da Escola e do professor, pela dignidade dos alunos, seja qual for a sua idade, e do próprio Saber. Cumprem-se ordens. Uma atitude que exige a abdicação de pensar e a anulação da nossa própria consciência e que tem servido de justificação ao longo da História para as maiores aberrações.Por acaso já leram «Desobediência Civil» do escritor Henri Thoreau?Maria do Carmo Vieira
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O ENSINO "PRONTO A VESTIR"
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