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Mereologia

http://dererummundi.blogspot.com/2008/11/mereologia.html

Helder Guégués tece amavelmente algumas considerações a propósito da minha referência a "mereologia" no meu post "Incompetência Linguística, Oportunismo e Mentira Política". Até parece que estou obcecado com a chatice desta palavrinha, porque dei por mais de uma vez este exemplo simples. De modo que vou explicar algumas coisas.A merologia é um "tratado dos princípios elementares de uma ciência", segundo o Aurélio; Houaiss afirma que é um "estudo dos fundamentos de uma ciência ou arte"; o dicionário da Porto afirma que é um "tratado elementar de qualquer ciência ou arte" e o da Texto afirma que é um "tratado dos princípios elementares de qualquer ciência ou arte".Há uma enorme diferença entre ser um tratado elementar de X e ser um tratado dos aspectos elementares de X, diferença que parece escapar aos autores da Porto. Por outro lado, o Houaiss nada diz sobre aspectos elementares, mas antes sobre fundamentos, e nem sempre os aspectos elementares de algo coincidem com os seus aspectos elementares. A conclusão é que ninguém sabe realmente o que é a merologia. O Houaiss afirma que o termo foi usado em 1873 num dicionário de língua portuguesa, mas isso não é grande ajuda.A coisa muda de figura quando consultamos o Oxford English Dictionary (OED). A merologia é "um ramo da anatomia que lida com os tecidos e fluidos fundamentais do corpo". Poderá um colega médico confirmar se usam este termo neste sentido em Portugal ou no Brasil? Se usam, então os dicionários de português que consultei estão errados.Quanto a "mereologia", o termo é correctamente registado pelo Aurélio: "A lógica da relação entre as partes e o todo", mas ignorado pelos outros dicionários de língua portuguesa referidos. É também grafado correctamente pelo OED: "O estudo formal das relações entre partes e todos". Também o Collins inglês grafa correctamente o termo: "o estudo formal das propriedades lógicas da relação entre parte e todo". O Collins refere que a origem da palavra é o grego, via o francês, mas pode estar errado, dado que o OED apresenta a sua origem directamente na língua polaca, referindo os escritos de Lesniewski de 1927, que poderá ter formado incorrectamente a palavra a partir do grego "meros-" e "-logos". A questão é que mesmo que esta formação esteja originalmente errada, faz parte já da terminologia filosófica básica, é usada comummente na bibliografia especializada e registada nos mais completos dicionários, tanto ingleses como de língua portuguesa, como é o caso do Aurélio.Espero ter esclarecido os leitores. A merologia é a ciência que estuda as relações entre as partes e o todo e nada tem a ver com a merologia, que a existir é um ramo da anatomia.A pobreza linguística portuguesa é constrangedora, sempre que se tenta fazer qualquer coisa mais com a língua do que escrever disparates como eu escrevo em jornais diários ou em blogs. A língua portuguesa não é culta; é uma língua que serve para comprar batatas e para as pessoas se insultarem na Internet; serve também de arma de opressão social, para algumas pessoas exibirem a sua imaginada superioridade corrigindo a ortografia, o léxico ou a sintaxe dos outros, invocando autoridades pardas de um imaginado passado intelectual glorioso português que nunca existiu, ou argumentos circulares baseados em etimologias puristas. (O que deveria fazer essas mesmas pessoas defender o termo "cona" em vez de "vagina", que tem uma etimologia muitíssimo mais sensata, como se defende aqui.)O problema, claro, não é a língua; a pobreza linguística limita-se a reflectir a pobreza científica e cultural. As línguas adaptam-se às nossas necessidades. E enquanto as nossas necessidades não passarem de pôr ou tirar mais uma ou menos uma consoante muda, continuará a faltar-nos a língua quando precisamos dela para fazer qualquer coisa mais sofisticada do que dizer asneiras na televisão. As aulas de ciências, economia e outras disciplinas, assim como muitas publicações académicas, são risíveis porque já é um linguarejar próprio, dificilmente identificável com o português, porque ninguém se dá ao trabalho de tentar alargar a língua na direcção da ciência e da cultura; a grande preocupação de alguns dicionaristas é incluir no dicionário qualquer disparate que qualquer pessoa diz em qualquer taberna, e que ao fim de dez anos já ninguém diz, ao mesmo tempo que considera irrelevante ler as publicações académicas para se manter a par do alargamento culto e científico da língua, colaborando ao mesmo tempo nesse alargamento para que seja sensatamente feito.Gabriel García Márquez escreveu em Cem Anos de Solidão que "o mundo terá acabado de se foder no dia em que a literatura tiver de viajar no vagão de carga", e eu permito-me parafraseá-lo para dizer que o mundo de língua portuguesa se fodeu de vez no dia em que os dicionários se apressam a registar qualquer idiotice como "bué", ao mesmo tempo que insistem na inexistência de "mereologia" por razões de pureza etimológica.

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