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Conhecimento primitivo e inferencial

http://dererummundi.blogspot.com/2008/11/conhecimento-primitivo-e-inferencial.html

Eis uma confusão que confunde quando se tenta conhecer os fundamentos do conhecimento: a distinção entre os pares conhecimento primitivo / derivado e conhecimento ininferencial / inferencial. É comum confundir as coisas e pensar que todo o conhecimento primitivo é ininferencial, mas há razões para pensar que isto é um erro. Uma parte importante do nosso conhecimento primitivo é inferencial.A diferença entre conhecimento primitivo e derivado é a seguinte. O conhecimento primitivo é o que se conhece por um dado meio, sem que seja possível conhecer por outro meio mais directo. Por exemplo, a única maneira que temos hoje de saber qual é a composição química da atmosfera de Marte é mandar sondas que façam lá análises ou inferir a composição química da atmosfera através da análise de espectro. Mas se pudermos ir a Marte pessoalmente podemos saber de um modo mais directo a mesma coisa. Analogamente, a única maneira que temos de saber que houve segunda guerra mundial é através da consulta de dados históricos, mas quem vivia em 1943 podia saber que havia tal coisa vendo-a directamente ao viajar pela Europa.A diferença entre conhecimento ininferencial e inferencial é a seguinte. O conhecimento ininferencial é o que se conhece sem activar a faculdade do raciocínio explícito, ao passo que o conhecimento inferencial é precisamente o que se conhece por meio de uma inferência ou raciocínio. Por exemplo, uma pessoa olha e vê que está a chover — este conhecimento não é inferencial, apesar de o sistema de processamento visual e cognitivo ser extremamente complexo; mas as faculdades de raciocínio explícito não são activadas. Ao invés, para saber que vai ocorrer um eclipse num dado momento, temos de raciocinar explicitamente, fazendo cálculos.É uma tentação pensar que todo o conhecimento primitivo tem de ser ininferencial. É essa tentação que nos faz pensar que todos os argumentos de autoridade são espúrios: a ideia é que posso sempre ver directamente, de modo não inferencial, se algo é verdade ou não, em vez de me basear no testemunho dos outros. Só que isto é uma ilusão. Se fôssemos ver tudo aquilo em que acreditamos por testemunho, teríamos de ver as coisas mais básicas, e não teríamos tempo para nada mais. O conhecimento funciona numa rede social na qual diferentes agentes cognitivos vêem diferentes aspectos da realidade e depois confiam uns nos outros. Isto falha? Sim. Falha porque os agentes cognitivos mentem, além de não serem omniscientes, e falham, porque não são omniscientes, e são tendenciosos, porque têm preconceitos. Mas qualquer outra alternativa seria ainda pior, pois deixar-nos-ia num solipsismo metodológico que pouco mais nos permitiria saber além de que eu existo agora e estou agora a ter a experiência de ver algo a que chamo “árvore”.

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