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A educação nacional e a avaliação dos professores

http://dererummundi.blogspot.com/2008/12/educao-nacional-e-avliao-dos.html

Nova crónica sobre educação de Rui Baptista: Segundo Roland Barthes, “a existência de uma erótica do novo, faz com que o antigo seja sempre suspeito”. Mas, com o saudosismo que a idade me permite, não posso deixar de evocar os meus tempos de aluno do então chamado ensino primário em que eram exigentemente avaliados os conhecimentos da leitura, da escrita e da resolução de problemas matemáticos, com exames de passagem da 2.ª para a 3.ª classe e exame final da 4.ª classe. Vivia-se também em tempo de grande prestígio para o exercício da docência no ensino liceal (que os ventos da mudança “alcunharam” de secundário) que mereceu de Clara Pinto Correia uma bela crónica, intitulada “O render dos heróis”, de que transcrevo um excerto: “A barbárie não anda longe. Nunca andou. É contra o seu fundo de trevas que se desenha o brilho da civilização. É nesse mesmo fundo que, de tempos a tempos, o brilho se dissolve e a escuridão total desce sobre a floresta. É cíclico. Já aconteceu antes. Mais que uma vez. Não temos nenhuma razão, pelo contrário, para pensar que não volte a acontecer. Para evitar que assim seja temos nos professores do liceu a mais importante das nossas armas. Devíamos beijar-lhes as fímbrias do manto”. Em contrapartida, hoje, com o laxismo de deixar passar toda a gente, brada aos céus a falta de cultura geral (e específica) de alguns dos alunos do ensino secundário e mesmo do ensino universitário. Apenas um pequeno e elucidativo exemplo: o “Jornal Nacional” da TVI (29/01/2003), ao entrevistar alunos da Faculdade de Letras de Lisboa perguntou a um deles o nome do autor de “Os Maias”. Por mais incrível que pareça, foi atribuída a autoria a Egas Moniz deixando, dessas forma, pairar a dúvida se se estaria a referir a Egas Moniz, fidalgo do século XII, exemplo de honradez, ou a Egas Moniz Prémio Nobel da Medicina de1949. Trazia ele atrás de si doze anos de escolaridade anterior porque nessa altura só existiam as velhas oportunidades! Sendo alguns destes alunos futuros professores do actual ensino secundário ou mesmo universitário, não será a altura de diagnosticar, avaliar e procurar soluções para o estado calamitoso do nosso sistema de ensino que faz com que a ignorância dele se tenha apossado transformando-o numa triste e desalentadora chaga nacional? Até que ponto poderemos continuar a fazer ouvidos de mercador às palavras de António José Saraiva, uma referência incontornável da cultura portuguesa, quando nos adverte:”Não se deve confundir a vida política com um estado de agitação convulsiva em que não há regras e em que cada aventureiro (…) manipulando manifestações de rua, impõe a sua lei, como aconteceu nos meses seguintes ao 25 de Abril. A regra do jogo é indispensável a qualquer sociedade organizada”? (Crónicas de António José Saraiva, Quidinovi, 2004, p.671). Passados anos (esta crónica é do ano de 1983), onze sindicatos em representação dos professores continuam a manifestar-se contra o sistema de avaliação proposto pelo Ministério da Educação que enquadra num mesmo modelo avaliativo docentes do ensino infantil ao ensino secundário como se a exigência científica e pedagógica dessa docência pudesse assumir a forma de “prêt-à-porter” em repetição de um espartilho representado anos antes por um estatuto de carreira docente única que não encontra paralelo em outros países europeus. E o mais curioso disto é que nesse aspecto nenhuma discordância separa a tutela dos tutelados. Ou parece separar. Embora, como reconheceu Jeff Busch, referindo-se a uma reforma educativa no estado da Florida, nos Estados Unidos, de que era governador, “quem não mede não se preocupa com as coisas”, a crise actual portuguesa é bem mais ampla do que a questão da avaliação. Exige uma profunda e radical política que retire Portugal do atoleiro que lhe tolhe o passo na senda dos melhores resultados escolares do resto da União Europeia. As notícias sobre o sistema de avaliação dos professores, que têm enchido páginas e páginas dos jornais, ocupado horas e horas de tempo de antena radiofónica e passado até à náusea nos ecrãs de televisão, fazem correr o risco do acessório se transformar em principal. Para a isso obstar, a reforma do sistema educativo do ensino infantil ao universitário merece ser encarada na sua globalidade e não como um remendo em esburacada manta de retalhos. Mas haverá coragem e vontade política em promulgar a necessária e urgente legislação sem ser sob pressão sindical ou de lobbies de outra natureza? Caso contrário, é melhor deixar tudo como está porque, nas palavras pessimistas (ou realistas?) de Albert O. Hirschman, “sempre que se propõe uma reforma, é verdade, primeiro, a reforma não vai alterar em nada o que já existe; segundo, a reforma vai produzir efeitos exactamente contrários aos que pretende ter; terceiro, a reforma vai prejudicar o que havia de positivo na reforma anterior”.

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