Ou o Efeito das correlações ilusóriasNão acha que, na nossa vida de todos os dias, por vezes somos um bocado demasiado “interpretativos”? Os investigadores notaram a este propósito que, muito frequentemente, as pessoas exageram ou até mesmo inventam a frequência das relações que existem entre os acontecimentos que se produzem juntos. Por exemplo: “é normal que me tenha falado friamente, é um nórdico” ou ainda: “as mulheres são mais perigosas ao volante do que os homens”, quando, todavia, os números mostram que elas correm 2,6 vezes menos riscos do que os homens de serem mortas num acidente[1].De igual modo, ouvimos dizer com frequência: “o cliente que paga menos é aquele que se queixa mais”, “os bons partidos já estão todos tomados”, “sempre que lavo o carro, chove logo”, “ é sempre quando precisamos urgentemente do carro que ele se recusa a arrancar”, “quando temos pressa, os semáforos estão todos vermelhos”, “as previsões meteorológicas são sempre falsas”, “quando temos mais do que uma folha para fotocopiar a máquina nunca tem papel”, etc..A esta tendência do espírito para exagerar a frequência das ligações entre fenómenos em presença, chamaram-lhe os investigadores “correlação ilusória” (Chapman, 1967).1) A confusão das fontesMas mais não fazemos do que exagerar as relações entre os factos; confundimos frequentemente o efeito com a causa…Um exemplo flagrante consiste, por exemplo, em acreditar que os antibióticos causam fadiga… Com efeito, cada vez que os tomamos, sentimo-nos fatigados. Desconfiamos, então, de que os antibióticos são os responsáveis por esse esgotamento. Na realidade, esse cansaço é devido à infecção pela qual o nosso médico nos prescreveu um antibiótico. Mas, como fadiga e antibiótico são acontecimentos que estão sempre presentes em conjunto, imaginamos que mantêm entre si uma relação de causa-efeito (Horn, 1998).2) O peso das crenças sobre os nossos juízosPor vezes também inventamos relações entre os factos. Conhece certamente pessoas que acreditam na influência da lua cheia sobre o suicídio ou ainda sobre os partos, mesmo que há já muito tempo se tenha demonstrado que não existia qualquer relação entre estes fenómenos (Byrnes e Kelley, 1992; Little, Bowers e Little, 1987; Periti e Biagiotti, 1994).A presença de uma ligação entre os ciclos da lua e os nossos comportamentos encontra-se, contudo, muito ancorada nos nossos espíritos, mesmo nos de alguns profissionais da saúde. Esta opinião é uma ilusão de correlação, pois se sobrestima a probabilidade de aparição de alguns comportamentos durante algumas fases lunares.Correlações ilusórias também na percepção que algumas pessoas podem ter entre os traços de personalidade de um indivíduo e o seu signo astrológico: “Deves ser Balança, sempre a pesar os prós e os contras”. Todavia, a astrologia mais não é do que um jogo divertido relativamente ao qual se mostrou, por meio de inúmeras e ilustres experiências, até que ponto é inoperante e irracional (Carlson, 1985). O que não impede nem a perenidade de tais práticas nem de inúmeras pessoas acreditarem perceber ligações fortes entre a forma como um indivíduo se comporta e o seu signo zodiacal.Talvez já tenha ouvido dizer a pessoas que sofrem de artrite reumatóide que a sua dor se encontrava associada às condições atmosféricas? Pretendem sofrer muito mais quando o tempo está húmido.Investigadores (Redelmeier e Tversky, 1996) tiveram então a ideia de estudar durante 15 meses as ligações entre as variações climatéricas e a sintomatologia dos pacientes (dor subjectiva, avaliação médica, etc.). Os resultados não mostraram qualquer relação entre esses acontecimentos. Quando os resultados da investigação foram apresentados aos pacientes, recusaram, porém, acreditar neles!3) Correlações ilusórias e comportamentosPor vezes exageramos de tal maneira o impacte de uma causa provável que a sua simples evocação pode ir muito para além do juízo e influenciar directamente os nossos comportamentos. É o caso do efeito de placebo que designa a ligeira melhoria[2] que produz um medicamento que, contudo, não contém qualquer substância farmacológica (farinha, por exemplo), mas que foi apresentado ao doente como sendo um tratamento real.Se um medicamento destes lhe é prescrito, e mesmo que contenha apenas água (sem que o saiba), é bem provável que se sinta ligeiramente melhor. O efeito de placebo assenta sobre uma ilusão de correlação pois os sujeitos exageram a frequência que existe entre a tomada de um medicamento e o facto de se sentir melhor, a ponto de se sentirem eles próprios realmente melhor depois da tomada de um pó de perlimpimpim.A ilusão que podemos manter entre as nossas crenças e os nossos próprios comportamentos é atestada pela experiência seguinte…Investigadores compararam três grupos de pessoas. Algumas bebiam vodca-tónico, outros julgavam estar a bebê-lo, quando na realidade se tratava de água gasosa com sumo de lima e, por fim, outro grupo só absorvia água gasosa, mas com conhecimento de causa (Marlatt e Rohsenow, 1980).Os resultados foram surpreendentes. Os homens que julgavam ter bebido álcool comportaram-se de forma muito mais agressiva do que aqueles que só tinham bebido água. Numa outra experiência os homens e as mulheres diziam que estavam muito mais excitados sexualmente (Abrams e Wilson, 1893).Estas pessoas foram vítimas de uma ilusão de correlação. Sobrestimaram a frequência dos comportamentos agressivos e sexuais aquando da tomada de álcool, ao ponto de se imaginarem a si próprios nesse caso, quando apenas bebiam água…4) O recurso a teorias ingénuas nas correlações ilusóriasNão apenas exageramos a frequência das relações entre os factos como, para explicar esta relação, baseamo-nos frequentemente em teorias ingénuas que mantemos a propósito dos acontecimentos: por exemplo “é normal que hoje esteja frio (meados de Abril) porque não tivemos neve no Natal” (“Noël au balcon, Pâques aux tisons[3]", entenda-se).Os próprios psicólogos clínicos não escapam a estas ilusões. Investigadores (Chapman e Chapman, 1967, 1969) apresentaram a psicólogos e a estudantes de psicologia casos de hipotéticos pacientes com problemas diversos. Cada caso era acompanhado por um diagnóstico (paranóia, problema de impotência, etc.) e pelo desenho de um boneco, supostamente feito pelo paciente.Os resultados colocaram em evidência que os sujeitos sobrestimavam a frequência dos sinais presentes nos desenhos em função da problemática do paciente. Assim, quando sabiam que estavam a avaliar um paranóico, encontravam com mais frequência no desenho olhos muito grandes; quando o paciente estava preocupado com a sua masculinidade, encontravam muitos ombros largos e musculatura desenvolvida…Este efeito revelou-se extremamente resistente aos dados contraditórios uma vez que, na presença de relatórios que testemunhavam o contrário[4], as pessoas não corrigiam as suas conclusões e continuavam a basear-se em teorias ingénuas.Parece, evidentemente, que preferimos as explicações que confirmam as nossas crenças. O inconveniente é que, muito frequentemente, o recurso a estas teorias ingénuas reforça e mantém os nossos estereótipos: “É porque a porteira é portuguesa que faz esse trabalho.”.Um outro exemplo destas teorias erradas diz respeito à altura dos indivíduos…Se pensa que as pessoas muito altas transmitem uma impressão de poder, então poderia confiar-lhes muitos mais poderes (Forsyth, 1990). É seguramente a razão pela qual se constata que no exército os soldados muito altos, que no momento da sua incorporação são forçosamente pagos da mesma maneira que os soldados mais baixos, obtêm, vinte e cinco anos mais tarde, salários claramente superiores aos dos seus companheiros (Gergen e Gergen, 1984).As nossas crenças permitirão às pessoas muito altas terem mais oportunidades de acesso a postos de maior responsabilidade…De onde vêm estas teorias falsas? Parece que se constroem e se propagam a partir do meio no qual evoluímos. A subida do anti-semitismo é um exemplo flagrante deste tipo de propagação de opiniões truncadas.Édouard Drumont, jornalista anti-semita, declarava, em 1886, em A França judia que se podia reconhecer um judeu pelos seus traços físicos: “Esse famoso nariz recurvado, os olhos piscos, os dentes serrados, as orelhas salientes, as unhas quadradas, o torso demasiado longo, o pé chato, os joelhos redondos, o tornozelo extraordinariamente saliente, a mão mole e derretida do hipócrita e do traidor”. As revistas racistas de antropologia relataram estes conceitos que seriam retomados pela imprensa. Os jornais, por sua vez, difundiram estas teorias que, sob uma capa de uma descoberta pseudo-científica, iriam tornar-se uma verdade “observável” e justificar os comportamentos e atitudes anti-semitas.Por que é que o espírito humano parece fundamentalmente recalcitrante face ao rigor do raciocínio científico, sobrestimando o impacte das causas prováveis e preferindo descansar sobre ditos populares, teorias ingénuas não validadas e crenças absurdas? Primeiro porque temos necessidade de dar um sentido àquilo que observamos. Existe no ser humano uma tendência natural para a explicação. Também, face aos acontecimentos, preferimos fazer apelo a teorias anteriores a fim de evitarmos ir procurar informações que só estão disponíveis em enciclopédiasAcresce que, perante uma situação nova ou um novo indivíduo, não podemos testar todas as hipóteses que se lhe possam aplicar, seria demasiado demorado. Preferimos, então, fiarmo-nos no “bom senso” popular e fazer uso das explicações que se encontram disponíveis mais rapidamente. Inúmeras pseudoteorias ocorrem-nos, então, ao espírito. Algumas podem ser consideradas como verdadeiras, outras, a maioria das vezes, como falsas. Estão de tal forma enraizadas no nosso pensamento e na nossa cultura que, para um número importante de indivíduos, têm um estatuto de teorias e de métodos científicos. É o caso da morfopsicologia[5] e da grafologia que, apesar da sua esmagadora incapacidade de predizer os comportamentos e de descrever personalidades ainda são utilizadas (King e Koehler, 2000).De modo a conservar este prático sistema de explicação do mundo, temos igualmente tendência para exagerar a quantidade de vezes em que estas teorias se podem aplicar aos acontecimentos com os quais nos confrontamos.ConclusãoPara terminar, imagine que rolava numa pequena estrada no campo e que, de súbito, sentia vibrações no volante. Pára, então, na berma da estrada e repara que acaba de furar um pneu. Se disser: “Este problema acontece, em média, uma vez a cada 60 000 quilómetros, estou dentro da norma…”, está a ser racional. Se pensar: “Devo ter feito qualquer coisa errada e estou a ser castigado…”, é uma expressão da sua crença na justiça do mundo (cf. página 67). Enfim, se disser: “É normal, cada vez que me cruzo com um gato preto, acontece-me algo…”, isso indica que estabelece uma ligação entre acontecimentos fortuitos e que então é vítima de uma correlação ilusória.Dado isto, as correlações ilusórias são, por vezes, divertidas, como são disso testemunho alguns extractos das leis de Murphy infra:Teorema das filas de espera: “a fila ao lado avança sempre mais depressa”;Teoremas do supermercado de Maurice: “estamos sempre atrás da velha senhora surda que se esqueceu de pesar os legumes”, “se, por acaso, pensou nisso, a caixeira esqueceu-se de vos dizer que a caixa fecha depois de atender a senhora”, “se escapou aos dois teoremas precedentes, é porque um dos seus artigos não tem preço marcado e será obrigado a esperar que o “senhor Bernard” vá verificar”;Corolário do terceiro teorema: “o senhor Bernard está sempre nos lavabos quando o chamam”.[1] Fonte: Observatório Interministerial da Segurança Rodoviária.[2] Efeito constatado sobre a avaliação subjectiva da dor, mas muito fraco sobre a doença em si ( Hrobjartsson e Gotzsche, 2001).[3] Provérbio francês que significa que se o Natal for ameno, a Páscoa é passada ao borralho. (N. da T.)[4] Sabe-se que o desenho do boneco não tem qualquer valor explicativo em psicologia (Motta, Little e Tobin, 1993).[5] Pseudociência que consiste em ligar traços faciais e cranianos a traços de personalidade: “uma testa alta é sinal de uma inteligência considerável”.In 150 Experiências de Psicologia.
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Porque é que os semáforos estão vermelhos quando tem pressa?
http://terrear.blogspot.com/2009/03/porque-e-que-os-semaforos-estao.html

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