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“Transgredir as fronteiras”

http://dererummundi.blogspot.com/2009/04/transgredir-as-fronteiras.html

Sistemas de ensino como o nosso estão virados para a aquisição de competências (seja lá isso o que for…) apuradas no e para o quotidiano, a vida dos alunos, focadas no “saber-ser” e “saber-fazer”, como forma de preparação para a “vida activa”, para a prática, para a aplicação, para a integração social e profissional…Sistemas educativos como o nosso afastam dos curricula os conhecimentos que se suspeita não poderem ser “mobilizados”, de imediato, para a “resolução de problemas reais”, com o argumento de que os alunos, por não lhe verem qualquer serventia, se desmotivam …Sistemas educativos como o nosso proclamam que todos os conhecimentos são relativos e se equivalem: aqueles que consideramos eruditos e universais não passam de escolhas, mais ou menos aleatórias, de elites estabelecidas, que as transmitem aos seus descendentes com o intento de manterem o seu estatuto privilegiado. A estratégia igualitária só pode ser a reacção “crítica” e “emancipatória” que legitima a substituição desses conhecimentos por outros que emergem nos mais variados contextos culturais, étnicos... e que têm sentido nesses mesmos contextos.Assim sendo, sistemas educativos como o nosso põem em risco o saber que a civilização tem conseguido construir e que, afinal, lhe dá identidade. Praticamente todas disciplinas que constituem esse saber, sejam elas de carácter científico ou humanístico, se vêem ameaçadas de morte, restando-lhe lutar, em sentido contrário ao das orientações oficiais, pela sobrevivência dos seus fundamentos e essência, como forma de as fazer chegar ao futuro.De entre essas disciplinas, as Clássicas são talvez as que mais se têm ressentido. Nesta lógica que conforma a escolaridade, marcada pelo utilitarismo e “amnésia planificada”, como chama George Steiner, que temos vindo a deixar instalar, elas não “servem” rigorosamente para nada. Se não, vejamos: pertencem ao passado, estão, portanto afastadas dos interesses actuais da esmagadora maioria dos alunos e não se vê como os poderão ajudar a arranjarem um emprego que lhe garanta a “autonomia económica”.Interditar as Clássicas seria, no entanto, excessivo. (Ainda) há vozes capazes de se manifestarem, vozes que, apesar de tudo, causam algum embaraço. Assim, a solução encontrada é, como refere ironicamente Margarida Lopes Miranda, a atribuição de uma espécie de “reserva ecológica”, onde essas vozes se acomodem.Contudo, vejo os nossos classistas, parafraseando o físico-matemático Alan Sokal, “transgredirem as fronteiras” de tais reservas. Nas escolas e nas universidades vejo os professores continuarem a ensinar com entusiasmo os seus alunos; vejo investigadores de todas as idades a traduzirem textos de grandes autores, alguns deles originais, para a nossa língua, em edições académicas e de divulgação; vejo-os a criar colecções em papel e on-line, cuidando que a linguagem não seja uma barreira, mesmo entre os menos cultos; vejo-os a adaptarem peças de teatro de modo que as pessoas comuns as entendam e a representarem-nas por aí, por onde essas pessoas estão; vejo-os a estudarem aprofundadamente aspectos particulares da vida na Antiguidade, da maneira de pensar, sentir e agir de personagens que, distantes de nós no tempo, poderiam ser nós próprios; vejo-os a participarem em debates, tertúlias para darem a conhecer os seus autores e obras mais amadas…Apesar de todos ventos parecerem soprar a desfavor, vejo as clássicas a renascer.

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