No final do texto Miss Atom, Carlos Fiolhais não deixa de mostrar alguma estranheza pelo facto de as festividades da Queima das Fitas de Coimbra terem incluído neste ano o concurso Miss Queima das Fitas. Essa estranheza assemelha-se à minha quando, há uns meses atrás, ao folhear o semanário As Beiras, vi a notícia dum concurso de miss que tinha acabado de se realizar numa escola secundária.Mais estranhei quando percebi que as professoras que me acompanhavam num café de final de tarde não estranhavam a notícia, porque, segundo me explicaram, tais concursos são já tradição, ou moda - qualquer coisa assim – e, nessa medida, toda a escola que se preze tem de ter o seu concurso de miss e… de mister.Qualquer escola? Mesmo as básicas? Sim, claro, mesmo as básicas.Apesar da confiança que tenho nessas professoras, incrédula, investiguei o caso: indaguei junto de outros professores e de alunos. Também pesquisei na internet… E, como não podia deixar de ser, confirmei o que havia lido no jornal e me haviam dito.Mais do que a ideia subjacente à “iniciativa”, que me parece claramente peregrina; mais do que a indiferença, ou conformismo dos professores com quem falei; mais do que o entusiasmo acrítico dos alunos, do tipo “porque não”; mais, até, do que a exposição em palco e em imagens, ao acesso de todos, de alunos acabados de sair do primeiro ciclo; o que me deixou verdadeiramente perplexa foi a associação feita entre alguns desses concursos e “preocupações de índole social”, que supostamente os desencadeiam. “São espectáculos solidários, ou seja, o bilhete de entrada será um bem alimentar (leite, açúcar, enlatado, entre outros) à escolha dos espectadores”, esclarece uma escola.“É a pós-modernidade”, como lembrava ontem um leitor do De Rerum Natura… Pois… é a pós-modernidade, onde tudo se mistura, onde tudo está certo, ou, pior, onde nada está certo nem errado, está apenas…Apesar do impacto deste tipo de ambiente intelectual na formação cognitiva, afectiva, relacional e moral das crianças e jovens ainda não estar completamente esclarecido, à partida, não se percebe como poderá contribuir para a estruturação da sua personalidade.Nessa medida, na sequência do texto que ontem aqui publiquei, e partindo do princípio (questionável, admito, à luz do pós-modernismo) que a escola é a instituição à qual se imputa a missão de ensinar aquilo que se afigura como fundamental para a manutenção dos padrões civilizacionais e para o desenvolvimento dos sujeitos, insisto na necessidade de, como sociedade, procurarmos responder à pergunta: O que é que a escola deve ensinar?Operacionalizando a pergunta, acrescento outras: Que objectivos concretos devem guiar a escola? Que actividades deve a escola promover? Quem deve tomar decisões no que respeita a assuntos escolares? Que lugar deve a escola ter na comunidade e que relações deve estabelecer com ela?A tentativa de "aproximação" – talvez seja mais apropriado usar o termo "fusão" – que a escola tem feito nos últimos anos à comunidade regional e local, acompanhada da intromissão desta na vida da escola, não tem tido apenas como consequência a substituição, nos manuais de Língua Portuguesa e de Português, de textos dos nossos melhores autores por textos que “naturalmente” interessam aos alunos por se confrontarem com eles na televisão, nem forçarem-se até à exaustão os problemas de Matemática para que eles encaixem no quotidiano dos alunos, nem, sequer, indicar-se no Currículo Nacional do Ensino Básico que, se deve trabalhar pedagogicamente a partir das experiências e vivências sociais, familiares e pessoais dos alunos… tem tido também como consequência o desnorte que podemos constatar em iniciativas como esta dos concursos a que acima aludi.As escolas admitem-nas, consentem-nas, apadrinham-nas, acolhem-nas, seja o que for… pois julgam estar a agir de acordo com as orientações curriculares (e não estarão?). Por seu lado, as comunidades apreciam, elogiam, louvam… as escolas que assim procedem, pois percebem, triunfantem, que elas se conformam, adaptam, adoptam as suas opções, características, gostos, modos de pensar e de agir…Por isso, a uma escola, junta-se outra e outra… nenhuma querendo correr o risco de ficar para trás nesta nobre tarefa de “ligação da escola à comunidade”… que se traduz, afinal, em deixar-se ir no seu rumo….Imagem retirada de: http://images.google.pt/imgres?imgurl=http://www.esec-tabua.rcts.pt/alunos/miss_mister_escola1.jpg&imgrefurl=http://www.esec-tabua.rcts.pt/alunos/assoc_estudantes.html&usg=__XEORnM-cuwbVCESRNIw3W-nBXjI=&h=1677&w=1204&sz=176&hl=pt-PT&start=3&um=1&tbnid=IS2FMeUpCU9JeM:&tbnh=150&tbnw=108&prev=/images?q=escola+concurso+miss+mister&hl=pt-PT&cr=countryPT&sa=G&um=1
passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
É a pós-modernidade…
http://dererummundi.blogspot.com/2009/05/e-pos-modernidade.html

Your favourite external commenting service goes here! I recommend http://www.disqus.com