E contudo, as crianças com dificuldades de aprendizagem podem aprender e progredir activamente. Há profissionais de sucesso que passaram, quando crianças, por este tipo de problemas. Se o problema for detectado precocemente, a ajuda pode ser maior ainda. Eis algumas das actuações dos pais, destinadas a evitar sentimentos de insucesso e de stress, aplicáveis, aliás, a outros problemas escolares:- Apoiar com carinho e manifestações de afecto que compensem a autodesvalorização da criança. Dedicar-lhe tempo.- Estimular e realçar os seus pontos fortes (p.e. desporto, jogos, aptidões e destrezas manuais, etc.), competências e interesses. Servir-se desses aspectos para compensar as suas limitações no âmbito escolar.- Mostrar à criança que a aceitamos tal como é, e realçar o seu progresso noutras áreas, o seu desenvolvimento humano.- Ter para com a criança expectativas e exigências realistas e que estejam ao seu alcance. Implicá-la em decisões sobre actividades da família, mostrando-lhe que é um membro “importante” da mesma, e que as suas opiniões são tidas em conta.- Entusiasmá-la sempre, chamar-lhe a atenção para os sucessos no campo escolar, transmitir-lhe optimismo e confiança em superar as suas dificuldades.Medos e fobias em relação à escola Os medos são reacções a acontecimentos ou objectos percebidos como ameaçadores. Implicam aspectos físicos, como aceleração do ritmo cardíaco, respiração agitada, etc. Implicam, também, sentimentos e pensamentos negativos sobre o que acontece. A ansiedade, embora possa acompanhar a manifestação de medo, tende a ser mais difusa, tem um estímulo menos definido, costuma ser mais permanente e pode chegar a converter-se numa situação crónica. Quanto às fobias, são temores irracionais, mais persistentes, inadaptados e exagerados, que podem levar a situações de incapacidade. À fobia costuma andar associada a ansiedade, que é o que angustia a pessoa quando tem de enfrentar o estímulo fóbico. Porém, os temores ou fobias só são “graves” quando são muito persistentes no tempo, dois anos ou mais, e debilitam ou paralisam a vida quotidiana da criança. Este problema pode surgir em diferentes idades, mas é mais comum na idade pré-escolar e na adolescência. Aqui trataremos apenas da fobia à educação pré-escolar e da que ocorre no início da primária. Neste caso, a fobia consiste num temor exagerado de ir para a escola. Pode manifestar-se através de sintomas, como medo profundo, ansiedade, sintomas físicos como vómitos, enjoos, e comportamento de resistência e oposição a ir ou a entrar na escola, como por exemplo, gritar e espernear, vestir-se muito devagar para chegar atrasado, etc. É um sintoma classificado pela APA (American Psychological Association) como desordem de ansiedade pela separação. Berg, Nichols e Prichard (1969, em Sears e Milburn, 1990) diagnosticaram este problema com base nas seguintes descrições:- Extrema dificuldade em frequentar a escola apresentando, frequentemente, prolongadas ausências.- Perturbação emocional profunda, revelando medos excessivos, mudanças de humor, queixas de má disposição, até com sintomas sem causa orgânica manifesta, quando chega a hora de ir para a escola.- Voltar para casa durante a escola com consentimento dos pais.- Ausência de condutas problemáticas como agressividade extrema, comportamentos destrutivos ou outros.Embora as crianças que sofrem desta fobia sejam consideradas normalmente inteligentes, admite-se que possam ser, muitas vezes, crianças imaturas, mais dependentes e mais deprimidas do que as que não revelam estes sintomas. Algumas podem ter tido experiências prévias desagradáveis que as levem a associar a ida para a escola a situações de ansiedade. Estas experiências não têm, necessariamente, que ser evidentes ou do conhecimento dos seus educadores, pois podem apenas ter sido vividas desta forma, fruto da interpretação feita pela criança devido, talvez, a uma maior sensibilidade da sua parte. Isto é, a fobia pode ter sido precedida de situações de stress e medos concretos.Como lidar com esta situação? Na maior parte dos casos, há que recorrer à ajuda dum psicólogo. Contudo, no parágrafo sobre o início da escolarização, já apresentámos algumas directrizes que podem ajudar os pais a superar esta conduta problemática. RECEIO DO INSUCESSO Este agente de stress afecta a conduta escolar, quando a criança desenvolve um sistema de explicações causais dos seus sucessos e insucessos e tem consciência da eficácia pessoal, ou seja, a partir dos sete, oito anos de idade. Existem três dimensões que caracterizam as atribuições causais do sucesso ou do insucesso escolar, a que recorrem as crianças e também os adolescentes e jovens.- O local da atribuição: segundo o qual o sucesso ou insucesso se pode atribuir a causas internas à própria criança, como a competência inata ou o esforço; ou a causas externas, como a má sorte no exame, ou pensar que as outras crianças se metem com ela.- A capacidade de controlo: implica que a criança acredita que pode, ou que não pode influenciar essa causa. No exemplo anterior, a criança pensa que pode esforçar-se mais ou menos, trata-se, pois, duma causa controlável; em contrapartida, a criança não pensa que basta querer para ser mais despachada e, portanto, esta competência inata é uma causa incontrolável. - A estabilidade de uma causa implica o diferenciar se ela é ocasional ou se se trata de uma factor que actua permanentemente. Por exemplo a sorte, boa ou má, seria externa, incontrolável e instável; o esforço, como causa de sucesso ou fracasso, seria uma causa interna, controlável e estável, se constituir um hábito.Comentamos a seguir os resultados de investigações realizadas com alunos mais crescidos, de onze a dezassete/dezoito anos de idade; fazemos esta abordagem por considerarmos interessante conhecer estas complexas associações, para assim se compreender melhor como um bom ou mau rendimento escolar afecta o desenvolvimento pessoal do aluno, através de processos que começam nos primeiros níveis de ensino.Atribuir o sucesso numa tarefa a factores internos e controláveis, como por exemplo, o esforço ou a competência e aptidões adquiridas, parece entrar na construção da percepção de auto-eficácia, que pode definir-se como a crença na sua própria capacidade ou competências para resolver situações concretas. Uma criança com elevada auto-eficácia para os estudos, desenvolverá expectativas de sucesso futuro e revelará persistência no estudo. Também é provável que escolha tarefas e metas de dificuldade intermédia que se ajustem às suas possibilidades, facilitando assim o sucesso. Os seus sentimentos serão de orgulho pessoal e de confiança em si mesma.Em contrapartida, atribuir o insucesso a factores internos e incontroláveis, como a incapacidade ou falta de inteligência, é particularmente perigoso e pode provocar stress no aluno, que começa a considerar-se um fracassado e incapaz, e a desenvolver expectativas de insucesso futuro, que o levarão a abandonar a tarefa ou o estudo e a adoptar uma postura passiva e desinteressada. Ao mesmo tempo, pode apresentar uma perspectiva pouco realista, recusando as tarefas de dificuldade intermédia, com medo de as não superar, preferindo as mais fáceis ou as muito difíceis, que lhe proporcionam justificação para o esperado insucesso. Vergonha e humilhação são sentimento associados à percepção de insucesso pessoal. Atribuir o insucesso a factores internos mas controláveis, como por exemplo, ter estudado pouco, pode fazer com que o aluno se sinta culpado ou responsável pelo maus resultado e que, portanto, fique motivado para superar essa situação. Esta atribuição não é tão perigosa para o autoconceito do aluno, e do ponto de vista dos educadores é preferível, pois põe a ênfase no controlo pessoal, faz com que o aluno assuma uma conduta reparadora e estimula o seu sentido de auto-eficácia se, após o esforço, conseguir realmente o sucesso.Finalmente, atribuir o sucesso escolar ou social à sorte ou ao acaso, não tem influência na percepção da auto-eficácia, mas também não motiva o aluno nem o leva a desenvolver hábitos de estudo eficazes.Os alunos a quem o insucesso escolar causa maior dano são aqueles para quem a motivação principal, mais do que aprender ou desenvolver competências, é não ficar mal perante os outros. São alunos mais dependentes da comparação com o outros, e que buscam a aprovação social. O insucesso deixa-os desesperados, convencidos de que se trata duma situação inevitável, uma vez que se deve à sua própria incompetência, e é uma importante fonte de stress para eles. Pode causar depressão e uma situação particularmente grave chamada “desamparo aprendido”, em que a criança se apercebe de que, faça o que fizer, não pode evitar o insucesso ou a reprovação, deixando-se, assim, arrastar para uma situação de passividade total, ansiedade e depressão.A experiência de insucesso escolar e as explicações elaboradas pelo aluno surgem muito cedo, logo nos primeiros níveis da escola elementar. Um vez diagnosticado o insucesso na criança (através das más notas, ou mesmo sem diagnóstico oficial), nos primeiros anos, é muito difícil que consiga ultrapassá-lo ao longo da escolaridade. É que, além disso, à medida que progridem na escolaridade, os alunos vão-se sentindo cada vez com menos auto-eficácia para o estudo, considerando-se a si próprios mais fracassados no que respeita à aprendizagem e menos interessados nela.COMO PREVENIR E ENFRENTAR O STRESSPROVOCADO PELO MEDO DO INSUCESSO A ameaça de insucesso é o resultado da forma como o sujeito interpreta a situação. Por isso é que os procedimentos educativos se devem orientar no sentido de mudar esta interpretação, mas isso exige também mudanças nas circunstâncias do meio ambiente, pois se uma criança fracassa por não conseguir alcançar os requisitos de determinada tarefa, poucas possibilidades haverá de a convencer de que não fracassou de facto. Já Bandura estabelecia que a auto-eficácia se constrói, pelo que toca ao sujeito, a partir de duas fontes principais:- A percepção do êxito. A forma mais infalível de conseguir que uma criança construa uma boa auto-eficácia é a judá-la a ter sucesso nas tarefas que tem de realizar. A sensação de sucesso é cem por cento saudável.- A persuasão verbal. Os educadores também influem na auto-eficácia da criança, pois com os seus comentários e apreciações mais ou menos explícitas, têm um impacto enorme no modo como a criança se vê a si mesma. Não é por acaso que a sabedoria popular nos apresenta as mães a dirigirem-se aos seus filhos mais pequenos nestes termos: “Que bom, que esperto e que lindo é o meu menino!”. Esta manifestação de apreço por parte dos pais é plenamente absorvida pela criança nestas primeiras idades.Estratégias centradas nos educadores Descrevemos, a seguir, algumas tácticas ao alcance de educadores, professores e pais destinadas a construir uma forte sensação de eficácia pessoal para combater a ansiedade face ao insucesso.- Propor tarefas que estejam ao alcance da criança. Verificar se possui os requisitos necessários, pois se assim não for, a tarefa acabará por ser inatingível.Paco, um miúdo de cinco anos, cheio de actividade e irrequieto, não teve sucesso na aprendizagem da leitura, por dificuldade em estar atento e sentado. No ano seguinte, os pais matricularam-no noutra escola onde, numa turma com poucos alunos, o professor adaptou os materiais à criança que, com procedimentos muito mais activos, aprendeu a ler sem problemas e evitou novo e previsível insucesso escolar.- Graduar a dificuldade de forma a facilitar a consecução de sucessos intermédios mais acessíveis, e o completo domínio da tarefa.A Ana, uma pequena deficiente mental de seis anos, ensinaram-lhe a vestir o pijama segundo a técnica da modelação, ou reprodução do modelo, que se baseia no graduar da dificuldade, de modo que, ao fim de duas semanas, já sabia despir-se apenas com uma ligeira ajuda, e estava muito orgulhosa do que tinha conseguido e convencida de que iria aprender mais ainda. - Atribuir o sucesso a causas internas, por exemplo, dizendo à criança: “Vês como as coisas te saem bem quando te esforças!”.- Atribuir o insucesso à falta de esforço, incentivando a criança a empenhar-se e a esforçar-se mais. Transmitir a ideia de que sempre se pode melhorar um resultado.- Ter muito cuidado com os comentários depreciativos, que são sempre apercebidos e registados pela criança que os traduz como significando que ela não vale nada. Por exemplo: “Não há meio de fazeres isto bem”, ou então “tu não dás para fazer isto”. Dado que se deve estimular a criança, convém fazê-lo atribuindo, sempre, o insucesso ao pouco esforço ocasional, por exemplo: “Hoje não trabalhaste com empenho”.- Procurar experiências de sucesso compensadoras noutras áreas diferentes, como por exemplo, em relações sociais, desenho, desporto ou ajuda nos trabalhos domésticos.InO Stress na Infância
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