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Um cenário irrealista

http://dererummundi.blogspot.com/2009/06/um-cenario-irrealista.html

Na sequência de textos anteriores e de comentários de leitores acerca daquilo que é ou que deve ser o ensino.Nos sistemas educativos ocidentais, a solicitação aos professores para que, além do ensino desempenhem tarefas várias, para as quais, por princípio, não estão habilitados, tem vindo a intensificar-se nas últimas décadas. Por outro lado, o ensino tem-se tornado mais exigente, sob o ponto de vista académico, pedagógico-didáctico e relacional.Pode dizer-se que os professores têm aceitado este cenário, sem demonstrarem uma clara posição de resistência, ainda que o seu grau de entusiasmo e empenhamento possa variar.Genericamente, os professores, além do seu trabalho, assumem funções burocráticas, como se fossem funcionários de secretária; bem como funções de acompanhamento dos alunos, como se fossem auxiliares de acção educativa. Para não falar de funções mais exigentes como detectar e seguir a evolução de crianças e suas famílias, à semelhança psicólogos ou assistentes sociais; ou fazer observação e planos de intervenção especializados para alunos com características particulares, à semelhança pedagogos, etc. Isto no quadro estritamente escolar, pois muitas outras coisas lhe são pedidas, como fazer a ligação da escola à comunidade ou organizar eventos com significado para ambas.Trata-se de um cenário perfeitamente irrealista, pois para que um profissional tenha um bom desempenho, o número de tarefa que lhe compete tem se ser necessariamente reduzido e, em caso algum, dispensa formação adequada.Assim, se expõem os professores, sobretudo aqueles que são mais dedicados ao ideal de serviço, a sentimentos devastadores de incapacidade e de culpa, que, em última instância, os pode conduzir ao esgotamento (Hargreaves, 1998).De facto, estudos empíricos têm demonstrado de modo inequívoco que a dispersão de tarefas e a exigência de perfeição que a acompanha, constitui uma importante fonte de mal-estar entre estes profissionais com consequências nefastas para as aprendizagens (Esteve, 1992). Explica Ph. Perrenoud (1993, 65) que “produz no professor a sensação de não saber por onde começar, de não conseguir fazer nada de jeito, à força de querer fazer demasiadas coisas, de não saber já o que começou, onde ficou, o que ainda resta fazer, o que tem mais urgência”.Nesta linha de pensamento, Estrela (1999, 23), posiciona-se firmemente ao arrepio da subalternização do papel primordial do professor que consiste na “promoção das aprendizagens”, até porque “o trabalho na sala de aula continua a ser central, até para os próprios professores” na estruturação da sua própria identidade (Hargreaves, 1998, 16).Em suma, para imprimir qualidade ao trabalho do professor “parece utópico pretender que ele desempenhe simultaneamente outros papéis igualmente exigentes. É tempo de se fazer uma redistribuição das funções dos professores (...) e de abrir a escola à colaboração doutros profissionais (licenciados em ciências da educação, psicólogos…)” (Estrela, 1999, 23). Profissionais que, dadas as circunstâncias estabelecidas pela tutela de escolarização e exigência de sucesso para todos, são imprescindíveis e inadiáveis.Obras referidas:- Esteve, J. M. (1992). O mal estar docente. Lisboa: Escher- Estrela, M. T. (1999). Da (im)possibilidade actual de definir critérios de qualidade da formação de professores. Psicologia, Educação e Cultura, vol III, n.º 1, 9-30.- Hargreaves, A. (1998). Os professores em tempo de mudança: trabalho e cultura dos professores na idade pós-moderna. Lisboa: Mc Graw-Hill.- Perrenoud, P. (1993). Práticas pedagógicas, profissão docente e formação: perspectivas sociológicas. Lisboa: Dom Quixote.

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