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Escola e reforma: quem está contra os saberes?

http://terrear.blogspot.com/2009/12/escola-e-reforma-quem-esta-contra-os.html

Um texto ainda muito oportuno dePhilippe Perrenoud*Os adversários das reformas escolares tomam-se frequentemente como os guardiões do saber, acusando os que querem mudar a escola de contribuírem para a descida do nível das aprendizagens. Em todos os países desenvolvidos, encontram-se alguns “intelectuais de direita” que proclamam, por vezes com talento, que os alunos não sabem nada, a escola fabrica verdadeiros ignorantes, antigamente é que era... E certos professores reconhecem-se neste discurso e entoam o mesmo refrão.Compreende-se o alvo: os “reformadores inconscientes”, que estão, acrescente-se, sob o domínio de um poder oculto, o dos pedagogos ou, mais globalmente nas ciências da educação, dos ideólogos que “não têm os pés na terra”. Estes termos, que permanecem frequentemente muito vagos, designam um bode expiatório e tentam, de forma demagógica, captar as inquietudes dos professores e dos pais a quem as reformas assustam por várias razões.Ora, primeiro ponto, o nível não desce. Dizê-lo é fazer prova de uma total ignorância dos factos. No início do século XX, 4% dos jovens faziam estudos secundários, sendo hoje 60% em França, mais de 30% em Genebra (65% em Portugal). Não se pode comparar os alunos do Básico de ontem e de hoje, fazendo abstracção do facto de que eles representam hoje uma importante fracção de cada geração. Além disso, os programas não cessaram de se complexificar, as Escolas Básicas assumem uma parte do que se ensinava na Universidade. Certosprofessores (e brilhantes analistas da praça...) que afirmam que o nível desce, teriam talvez alguma dificuldade (para usar uma expressão suave) em passar nos exames do Ensino Secundário que hoje se fazem! (Gostaria de ver, por exemplo, Medina Carreira a fazer o exame de Físíca e Química ou de Português do Ensino Secundário).O nível de instrução não cessa de se elevar, mesmo na ortografia, quando a escola já não passa um tempo louco a ensiná-la. Os aprendentes “já não sabem escrever”, ouve-se muitas vezes. Esquece-se que os aprendentes, nos anos sessenta, representavam uma forma de elite, uma vez que um terço dos jovens entrava na vida activa sem aprendizagem. Hoje, apenas alguns por cento deixam a escola no fim da escolaridade obrigatória.Significa isto que tudo vai bem? Não, porque o que importa é a relação entre o nível de instrução das pessoas e o grau de complexidade da nossa sociedade. Os jovens são cada vez melhor formados, mas a complexidade do mundo evolui ainda mais depressa, no domínio das tecnologias, do trabalho, dos media, do direito, da economia, dos conflitos, das migrações, da saúde, da segurança social, da alimentação, etc.Esta décalage não pode ser imputada à escola, que trabalha, justamente, para a combater. É o único motor das reformas escolares: aumentar o nível de instrução do maior número de alunos e tornar a escola mais eficaz. Pode-se debater as estratégias de mudança, os programas, os métodos, a avaliação. Dizer que as reformas voltam as costas aos saberes vai contra averdade e é uma asneira. Desafio os que mantêm este discurso a citar uma só reforma que despreze os saberes.Dizer que os pedagogos ou os investigadores em educação são “contra os saberes” é fazer prova de um desconhecimento total dos trabalhos realizados e de uma má fé imperdoável por parte de quem é suposto possuir o rigor e o espírito científico. Todos os professores implicados nas reformas, todos os pedagogos, todos os investigadores procuram, ao contrário, compreender o que impede a aprendizagem e o desenvolvimento dos meios de instruir as crianças que não têm o estatuto dos herdeiros.Não se instrui alguém dando-lhe más notas e excluindo-o da escola. Mas é talvez este o sonho dos conservadores: não ter senão bons alunos, enviar o mais rapidamente os outros para “a vida activa”. O sonho dos que não sabem ensinar senão os alunos que aprendem sozinhos, sem resistência, sem esforço porque vêm de um “bom meio” e têm uma relação com o saberfavorável aos estudos. Os pedagogos e as Ciências da Educação preocupam-se com os outros. Cada um que escolha o seu campo!in Tribune de Genève, 1-2 Dezembro de 2001Autor dos livros Porquê Construir Competências, Aprender a Negociar a Mudança em Educação e A Escola e a Aprendizagem da Democracia, todos editados pela ASA

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