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SOBRE A INVESTIGAÇÃO CIENTÌFICA

http://dererummundi.blogspot.com/2010/01/entrevista-2.html

Outro excerto da entrevista que dei a Fábio Rodrigues, aluno de Comunicação Social da Universidade de Coimbra:FR- O que é que o preenche mais: passar o seu saber a novos alunos ou desbravar novo conhecimento?CF- A nível do ensino superior, não se pode simplesmente ser professor sem ser também investigador porque estamos a tentar passar conhecimento ao mais alto nível. Para fazer isso temos de estar não só actualizados, mas também familiarizados com o método científico, com a maneira de chegar ao conhecimento. Não podemos servir aos alunos coisas feitas e acabadas e dizer “isto é assim e acabou-se”, temos de dizer “isto é assim e vocês, pelo menos alguns de vocês, têm a possibilidade de fazer mais”. Isto não pode ser dito por alguém que não tem capacidade para fazer mais, de acrescentar ele próprio pedras ao edifício científico. Para mim perguntarem-me se gosto mais do ensino ou da investigação é como perguntarem-me se gosto mais do pai ou da mãe... Tive uma altura que me dediquei com maior intensidade à investigação do que hoje, mas é sempre uma actividade apaixonante. Quando dou aulas, o que também é apaixonante, isso permite-me estar equipado não só com os conhecimentos mas também com as capacidades que adquiri e adquiro na investigação. Também na relação professor-aluno deve passar uma outra coisa muito importante, a atitude de prevenção perante o erro. O cepticismo é uma das coisas fundamentais que temos de transmitir na ciência, ensinar a não acreditar naquilo que o próprio acredita, porque, muitas vezes, o segredo da ciência está em descobrir erros em pequenas coisas. No fundo, ensinar só aquilo que se sabe sem ensinar como se pode saber mais é ensinar muito pouco.FR- Falando de investigação científica, já afirmou publicamente que, em Portugal, este sector estava ainda pouco desenvolvido...CF- Estava e, se compararmos com os países mais desenvolvidos, ainda está. Tem havido progresso, com cada vez mais pessoas a fazer ciência, mas a situação era tão má há umas dezenas de anos atrás, que pior era difícil. Quando dizemos que não somos um país avançado, devíamos dizer, para sermos mais rigorosos, que não somos um país tão avançado como devíamos ser. Não se trata aqui de uma mera competição, não se trata de ganhar uma medalha como nos Jogos Olímpicos. De facto, não é coincidência que os países mais avançados na ciência sejam também os países mais ricos, é algo que faz sentido. Não será uma relação directa e imediata, mas as pessoas que geram mais riqueza são também as detentoras de maior conhecimento. Se quisermos tomar o caminho adequado para nos tornamos mais ricos temos de, necessariamente, tomar o caminho para nos tornarmos mais sábios.FR- Devido a esse baixo nível de desenvolvimento comparado, há cientistas que se auto-limitam por escolherem trabalhar em Portugal?CF- A questão de trabalhar em Portugal é uma falsa questão porque em ciência não há fronteiras. Por exemplo, na física o objecto de estudo é todo o Universo, e este é único, habitado por todos, pelo que a física é a mesma para um chinês ou para um americano ou para um português. A ciência é um trabalho internacional: não há ciência portuguesa, mas sim ciência feita por portugueses ou ciência feita em Portugal. Como é evidente sendo a ciência feita em conjunto em todo o mundo, uma das molas da investigação é a circulação de pessoas. As pessoas têm de circular, é a forma que temos para evitar erros, haver uma comunicação permanente de resultados. Não havendo fronteiras físicas, há pessoas que saem e que entram do país. Contudo tenho a impressão que esse saldo nos tem sido positivo nos últimos tempos. Houve um tempo que para fazer ciência se tinha de emigrar e ficar lá por fora, mas, hoje em dia, a situação é bem diferente. Há evidentemente uma questão de mercado e alguns dos profissionais com maiores capacidades são naturalmente chamados para trabalhar nos países mais desenvolvidos a nível científico. Também é importante perceber que a ciência feita aqui nos é mais relevante, porque nos vai chegar mais depressa e se pode tornar mais rapidamente em riqueza. Nesse ponto de vista, todo o estímulo que puder ser dado para manter cientistas aqui será uma maneira de permitir uma mais fácil comunicação entre criação científica e bem-estar material.FR- Falando de mercado, qual pensa ser o papel que os privados devem ter na investigação científica?CF- Essa é uma questão interessante, porque um dos progressos que fizemos nos últimos tempos foi o aumento de empresas privadas a apostar na investigação, ainda que a percentagem de participação dos priovados no investimento em ciência ainda seja baixa, comparando com os países mais desenvolvidos. Nesses países, uma parte importante de investimento é público, mas há outra parte ainda mais importante de investimento privado. Essa parte pode e deve crescer mais entre nós. Um dos meios para o desenvolvimento passa pela percepção das empresas privadas de que apostar na investigação é algo lucrativo para elas. O problema, desde logo, é que algumas das empresas que trabalham entre nós são multinacionais, o que significa que o controlo e a investigação não estão aqui. Quanto às tão faladas Pequenas e Médias Empresas, muitas delas têm a ver com a ciência e tecnologia, mas a sua preocupação, e isso é muito típico dos empresários portugueses, é a procura do lucro imediato. Uma forma para tornar uma empresa sustentável e lucrativa a longo prazo é investir na investigação científica. Para isso, tem de se abdicar de pequenos lucros imediatos, em favor do futuro, o que é uma questão de mudança de mentalidade. É preciso saber planear e investir, distinguindo o curto e longo prazo, pois uma solução para o curto prazo pode não ser a melhor opção para o longo prazo. Em geral, não é.

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