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SOLUÇÕES À PROCURA DE PROBLEMAS

http://dererummundi.blogspot.com/2010/01/solucoes-procura-de-problemas.html

Post convidado de José Luis Pinto de Sá:Numa crónica de Julho passado num jornal diário, Pacheco Pereira recordava como, nos seus tempos de estudante universitário de Filosofia há 40 anos, era regra os Professores ensinarem o que lhes interessava pessoalmente e até, em particular, o que tinham investigado longamente nos seus doutoramentos, com pouca ligação com o que faria sentido do ponto de vista de uma licenciatura coerente.Não pude deixar de sorrir ao ler isso porque essa situação é também uma tendência nas tecnologias. Não é assim em todas as escolas, não era assim no tempo de estudante de Pacheco Pereira, e mesmo ultimamente a coisa melhorou com a maturação do corpo docente, mas há uns anos nas engenharias também era vulgar um recém-doutorado criar pelo menos uma disciplina de opção sobre o tema que investigara e, em alguns casos, criar até especialidades inteiras de Mestrado e mesmo licenciaturas. A multiplicação de cursos basicamente similares resultou dessa proliferação de doutorados, todos à procura do seu "espaço" próprio, assumida pelas estratégias de algumas escolas.Como disse, nos últimos anos a coisa melhorou, mas há um domínio em que esse subjectivismo persiste e tem cura difícil: o dos temas de investigação. É frequente o recém-doutorado, sobretudo se o seu doutoramento foi um desses tradicionais "à francesa" que o ocupou 6 anos a investigar um assunto muito especializado, quase tudo sobre quase nada, como ironizam alguns, enquanto ia esquecendo o resto que aprendera, é frequente, dizia, continuar a investigar o mesmo tema depois do doutoramento, concorrendo a subsídios e fundos públicos ou europeus por muitos anos.E, quando confrontado com o reparo de que deve procurar ligações à sociedade, aí vai ele à procura de problemas a que possa aplicar os temas que conhece e em que deseja continuar a publicar, dada a importação do lema americano do publish or perish. E muitas vezes conclui que a tal sociedade é atrasada e não o merece, visto não apresentar nenhum problema para a solução que ele domina e que lhe parece evidente ser o centro do mundo. E, se quando fez o doutoramento não era já docente universitário, vira-se para o Estado e exige-lhe emprego.Claro que é possível inverter os termos deste binómio solução-problemas. Mas para isso é preciso que o Estado que financia os doutoramentos incorpore as entidades empregadoras na própria definição dos seus temas. Há muitos países avançados onde o Estado só financia investigações universitárias em tecnologia se houver comparticipação empresarial nesses financiamentos. Claro que para tal é preciso que as empresas (privadas e públicas) tenham estratégias tecnológicas, e para ter estratégia tecnológica é precisa segurança financeira, sem o que uma empresa vive obcecada pelas vendas e compromissos de pagamentos, a prazo não superior a um ou dois anos; e é preciso que, se for pública, não viva apenas para fazer boa figura perante a tutela governativa, que tem um ciclo de vida não superior ao ciclo eleitoral.Ora nenhum desenvolvimento tecnológico leva tão pouco tempo a criar e a chegar a frutos, a não ser que consista na simples compra "chaves na mão" de algo feito lá fora, para eleitor ver...Mas, também nas áreas não-tecnológicas o Estado pode promover uma maior ligação entre os temas de Investigação e as necessidades sociais. Porque há-de o Estado português financiar bolsas de doutoramento em História sobre a representação material da realeza assíria, por exemplo, quando não temos nenhuma base de conhecimento particular nem interesses estratégicos no Iraque, e deixar a outros a investigação histórica sobre a formação das cidades angolanas, coisa que devia interessar ao nosso Ministério de Negócios Estrangeiros (nos EUA é a CIA que muitas vezes apoia essas investigações)? Ou porque não se relacionam os doutoramentos em Sociologia às necessidades de integração das minorias étnicas imigrantes, com o apoio das Câmaras Municipais, como nos EUA?Tenho um colega mais novo que se doutorou nos EUA há uns anos sobre a aplicação da teoria dos jogos e em particular dos conceitos de Nash à formação de preços em mercados competitivos de energia. O projecto era financiado por uma entidade interessada, e provavelmente a primeira em que pensarão será numa qualquer petrolífera. Mas não. Quem financiava esse projecto era o equivalente ao nosso Ministério Público, que queria ter meios para a detecção de fenómenos de cartelização na referida formação de preços. Imaginem termos também um Ministério Público assim...

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