Uma fábrica de calçados enviou dois de seus representantes de vendas para uma região na África a fim de pesquisar a viabilidade de expansão de seu negócio. De um deles retomou o seguinte telegrama:
SITUAÇÃO SEM PERSPECTIVA PT NINGUÉM USA SAPATOS
o outro escreveu triunfante,
OPORTUNIDADE DE NEGÓCIOS FANTÁSTICA PT ELES NÃO TÊM SAPATOS
PARA O ESPECIALISTA EM MERCADO que não vê os sapatos, tudo indica a falta de perspectiva. Para seu colega, as mesmas condições revelam uma abundância de possibilidades. Cada um dos representantes percebeu o cenário segundo seu ponto de vista; cada um deles retornou com uma história diferente. De fato, tudo na vida nos chega em forma de narrativa; é uma história que contamos. As raízes desse fenómeno são mais profundas do que somente atitude ou personalidade. Experimentos em neurociência demonstraram que obtemos a compreensão do mundo basicamente nesta sequência: primeiro, nossos sentidos nos transmitem uma informação seletiva a respeito do que existe lá fora; segundo, o cérebro constrói sua própria simulação das sensações; e somente então, por último, temos a primeira percepção de nosso meio. O mundo entra em nossa consciência na forma de um mapa já desenhado anteriormente, de uma história já contada, uma hipótese, uma construção feita por nós mesmos.
Uma experiência inovadora em 1953 revelou aos espantados pesquisadores que o olho do sapo só é capaz de perceber quatro tipos de fenômenos:
oLinhas em contraste evidente oAlterações súbitas de luminosidade oContornos em movimento oCurvas de contornos de objetos pequenos e escuros
O sapo não pode "ver" a face de sua mãe, não pode apreciar um pôr-de-sol, nem nuances de cores. Ele "vê" apenas o que necessita para comer e evitar ser comido: besouros pequenos e saborosos ou o movimento súbito de uma cegonha vindo em sua direção. Os olhos do sapo enviam informações selecionadíssimas ao seu cérebro. O sapo somente percebe o que se encaixa nessas limitadas categorias de percepção.
O olho do ser humano também é seletivo, todavia em um grau muito maior de complexidade que o do sapo. Pensamos que vemos "tudo", até que nos darmos conta de que as abelhas percebem desenhos em luz ultravioleta nas flores, e as corujas vêem no escuro. Os sentidos das várias espécies estão desenvolvidos para perceber informações cruciais para a sobrevivência - cães ouvem em frequência abaixo da nossa, insetos podem captar uma partícula de molécula de uma fêmea em potencial a milhas de distância.
Percebemos apenas as sensações a que estamos programados para sentir, e nossa consciência é ainda mais restrita pelo fato de reconhecermos apenas as situações para as quais já possuímos um mapa ou categoria.
Zander, Rosamund e Zander, Benjamin (2001). A Arte da Possibilidade. São Paulo:Campus
Ora isto é de uma importância vital para a educação e para os processos de ensino e aprendizagem. Aprender a ver, glosando Barthes e Caeiro é todo um programa de acção que é preciso inventar.