Como num espelho...O sistema educativo é alvo de uma espécie de radiografia periódica feita pelos media, a opinião pública, os utentes e o Parlamento. Inquirem-se alguns pais descontentes, alguns alunos desiludidos, alguns literatos prontos a denunciar o abaixamento do nível, alguns professores amargos, alguns directores desorientados e conclui-se: "O ensino está em crise!". Ninguém sabe exactamente o que isto quer dizer, qual é a amplitude do fenómeno nem a sua antiguidade A crise não é uma realidade objectiva, mas um olhar lançado sobre a realidade, uma construção social que não inventa os factos, mas que os selecciona, os liga, os amplifica, os dramatiza, os inscreve num quadro de conjunto, lhes atribui sentido como indícios de um mal-estar global do ensino. Sabe-se que bastam três catástrofes sucessivas para que se fale de uma série negra. A crise é uma construção mais sofisticada, mas com o mesmo modelo. Todo o sistema educativo está constantemente cheio de tensões, de conflitos, de dúvidas, de problemas insolúveis. Há, bem entendido, períodos mais felizes que outros, mas o discurso da crise exagera o contraste: de súbito, anuncia-se que tudo está mal, finge-se acreditar que ontem tudo estava bem. Uma parte do professorado descobre, então, no jornal ou na televisão, a crise do sistema educativo, mas fica com a impressão de que nas suas proximidades nada se passa de extraordinário. Mesmo que não se deixem impressionar e influenciar pelo clima geral, a crise vai modificar o seu ambiente pelo simples facto de que, sob a pressão dos media e de outras influências, o governo vai ser obrigado a "fazer qualquer coisa". Quando se dá "subitamente" conta de que o ensino está prestes a falhar a reviravolta das novas tecnologias, o ministério reage e os estabelecimentos de ensino recebem os equipamentos informáticos que não pediram, sem contudo conseguirem que lhes reparem o telhado ou substituam uma fotocopiadora obsoleta. Quando se descobre que as escolas estão "dominadas pela violência", é a chamada geral ao combate decretada de cima, mesmo nos sítios onde tudo decorre pacificamente. Quando os orçamentos da instrução pública são deficitários e o governo promete "corrigir vigorosamente a situação", mesmo os estabelecimentos de ensino mais desprovidos devem contribuir com contenção de despesas. Em resumo, quando o sistema é considerado em crise, é difícil fingir que não estamos preocupados, mesmo que não vivamos todos os mesmos problemas. Inquéritos, recomendações, novos procedimentos e economias súbitas não transformam o trajecto de um estabelecimento de ensino, mas interferem com as dinâmicas em curso, mudando o ambiente, mobilizando energias, principalmente as do director, que de repente tem que fazer relatórios circunstanciais sobre sectores que não o preocupavam, ou assistir a reuniões de onde saem recomendações que têm, na sua escola, pouca pertinência. Ser director escolar é participar mais do que o corpo docente nos acessos febris do sistema e navegar entre dois escolhos: mobilizar o corpo docente à volta das últimas directivas do Ministério, com o risco de fazer perder tempo a toda a gente, ou ignorá-las, com o risco de passar ao lado de um verdadeiro problema. Dirigir em período de crise é conhecer a boa utilização das flutuações, quer do ambiente quer da conjuntura política, saber proteger o seu estabelecimento escolar das modas, sem deixar de estar solidário com os debates de fundo. Se a distinção é fácil de entender, é mais difícil de executar no dia-a-dia, quando estamos metidos no meio dos acontecimentos. Assim, no domínio das violências escolares, muito mediáticas hoje em dia em França, é muito difícil, para um director escolar de uma área ainda tranquila, saber se se deve preparar hoje para o pior, ou praticar o wait and see. Corre, em ambos os casos, o risco de uma apreciação errada. Ora, é tão aborrecido subestimar urna ameaça verdadeira como criar uma "psicose".Este dilema não admite solução preconcebida, pelo menos no momento em que a crise se declara. Se fosse necessário sugerir medidas preventivas, elas apontariam, certamente, no sentido de uma mais forte capacidade de análise das tendências do sistema educativo e de antecipação das suas incidências locais. Sem nos alhearmos do mundo, podemos tentar não estremecer a cada um destes sobressaltos. Por exemplo, é razoável que um estabelecimento de ensino organize regularmente debates e sessões de informação sobre a evolução da sociedade e das suas incidências sobre a educação. Quantas mais ferramentas de análise a cultura profissional propuser, mais os docentes e o director escolar estarão à altura de estabelecer a diferença entre o que se passa localmente e os movimentos da conjuntura. Ser director não significa ser o único ou o melhor informado, mas, pelo contrário, partilhar a informação e manter o debate. Não é fácil, pelo menos por duas razões:- urna parte dos docentes, visto que há muito tempo nada os ameaça directamente, sentem-se pouco inclinados a interessar-se pelas evoluções globais do sistema educativo; nem as suas chefias nem os seus sindicatos os conseguem mobilizar, convencê-los de que são actores do sistema; é por isso que a maioria das crises das finanças públicas, por vezes bastante previsíveis em função da conjuntura económica, têm geralmente o efeito de um trovão no céu dos docentes, que só então descobrem quanto custa a Escola e que parte representa no orçamento nacional;- ser detentor de uma informação estratégica é uma fonte de prestígio e de poder e observa-se em numerosos chefes - escolares ou de serviço, em diversos organismos - uma tendência para capitalizar e monopolizar essa informação, em vez de a fazer círcular; compreende-se sempre demasiado tarde que um observador esclarecido não pode substituír-se a um colectivo lúcido ... Philippe Perrenoud, obra citada infra
passando os olhos por... terrear.blogspot.com
Crise do sistema: protegermo-nos ou afogarmo-nos?
http://terrear.blogspot.com/2010/04/crise-do-sistema-protegermo-nos-ou.html

- Tags:
- política educativa
- media
- violência
Your favourite external commenting service goes here! I recommend http://www.disqus.com