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Crise do sistema: protegermo-nos ou afogarmo-nos?

http://terrear.blogspot.com/2010/04/crise-do-sistema-protegermo-nos-ou.html

Como num espelho...O sistema educativo é alvo de uma espécie de radiografia perió­dica feita pelos media, a opinião pública, os utentes e o Parlamento. Inquirem-se alguns pais descontentes, alguns alunos desiludidos, alguns literatos prontos a denunciar o abaixamento do nível, alguns professores amargos, alguns directores desorientados e conclui-se: "O ensino está em crise!". Ninguém sabe exactamente o que isto quer dizer, qual é a amplitude do fenómeno nem a sua antiguidade A crise não é uma realidade objectiva, mas um olhar lançado sobre a realidade, uma construção social que não inventa os factos, mas que os selecciona, os liga, os amplifica, os dramatiza, os inscreve num quadro de conjunto, lhes atribui sentido como indícios de um mal-estar global do ensino. Sabe-se que bastam três catástrofes su­cessivas para que se fale de uma série negra. A crise é uma cons­trução mais sofisticada, mas com o mesmo modelo. Todo o sistema educativo está constantemente cheio de tensões, de conflitos, de dúvidas, de problemas insolúveis. Há, bem entendido, períodos mais felizes que outros, mas o discurso da crise exagera o contraste: de súbito, anuncia-se que tudo está mal, finge-se acreditar que ontem tudo estava bem. Uma parte do professorado descobre, então, no jornal ou na televi­são, a crise do sistema educativo, mas fica com a impressão de que nas suas proximidades nada se passa de extraordinário. Mesmo que não se deixem impressionar e influenciar pelo clima geral, a crise vai modificar o seu ambiente pelo simples facto de que, sob a pres­são dos media e de outras influências, o governo vai ser obrigado a "fazer qualquer coisa". Quando se dá "subitamente" conta de que o ensino está prestes a falhar a reviravolta das novas tecnologias, o ministério reage e os estabelecimentos de ensino recebem os equi­pamentos informáticos que não pediram, sem contudo conseguirem que lhes reparem o telhado ou substituam uma fotocopiadora obso­leta. Quando se descobre que as escolas estão "dominadas pela vio­lência", é a chamada geral ao combate decretada de cima, mesmo nos sítios onde tudo decorre pacificamente. Quando os orçamentos da instrução pública são deficitários e o governo promete "corrigir vigorosamente a situação", mesmo os estabelecimentos de ensino mais desprovidos devem contribuir com contenção de despesas. Em resumo, quando o sistema é considerado em crise, é difícil fingir que não estamos preocupados, mesmo que não vivamos todos os mesmos problemas. Inquéritos, recomendações, novos procedimentos e economias súbitas não transformam o trajecto de um estabelecimento de en­sino, mas interferem com as dinâmicas em curso, mudando o am­biente, mobilizando energias, principalmente as do director, que de repente tem que fazer relatórios circunstanciais sobre sectores que não o preocupavam, ou assistir a reuniões de onde saem recomen­dações que têm, na sua escola, pouca pertinência. Ser director es­colar é participar mais do que o corpo docente nos acessos febris do sistema e navegar entre dois escolhos: mobilizar o corpo docente à volta das últimas directivas do Ministério, com o risco de fazer per­der tempo a toda a gente, ou ignorá-las, com o risco de passar ao lado de um verdadeiro problema. Dirigir em período de crise é conhecer a boa utilização das flutua­ções, quer do ambiente quer da conjuntura política, saber proteger o seu estabelecimento escolar das modas, sem deixar de estar solidá­rio com os debates de fundo. Se a distinção é fácil de entender, é mais difícil de executar no dia-a-dia, quando estamos metidos no meio dos acontecimentos. Assim, no domínio das violências escola­res, muito mediáticas hoje em dia em França, é muito difícil, para um director escolar de uma área ainda tranquila, saber se se deve preparar hoje para o pior, ou praticar o wait and see. Corre, em am­bos os casos, o risco de uma apreciação errada. Ora, é tão aborrecido subestimar urna ameaça verdadeira como criar uma "psicose".Este dilema não admite solução preconcebida, pelo menos no momento em que a crise se declara. Se fosse necessário sugerir me­didas preventivas, elas apontariam, certamente, no sentido de uma mais forte capacidade de análise das tendências do sistema educa­tivo e de antecipação das suas incidências locais. Sem nos alhear­mos do mundo, podemos tentar não estremecer a cada um destes sobressaltos. Por exemplo, é razoável que um estabelecimento de ensino organize regularmente debates e sessões de informação so­bre a evolução da sociedade e das suas incidências sobre a educa­ção. Quantas mais ferramentas de análise a cultura profissional pro­puser, mais os docentes e o director escolar estarão à altura de estabelecer a diferença entre o que se passa localmente e os movi­mentos da conjuntura. Ser director não significa ser o único ou o melhor informado, mas, pelo contrário, partilhar a informação e manter o debate. Não é fácil, pelo menos por duas razões:- urna parte dos docentes, visto que há muito tempo nada os amea­ça directamente, sentem-se pouco inclinados a interessar-se pe­las evoluções globais do sistema educativo; nem as suas chefias nem os seus sindicatos os conseguem mobilizar, convencê-los de que são actores do sistema; é por isso que a maioria das crises das finanças públicas, por vezes bastante previsíveis em função da conjuntura económica, têm geralmente o efeito de um trovão no céu dos docentes, que só então descobrem quanto custa a Es­cola e que parte representa no orçamento nacional;- ser detentor de uma informação estratégica é uma fonte de prestígio e de poder e observa-se em numerosos chefes - esco­lares ou de serviço, em diversos organismos - uma tendência para capitalizar e monopolizar essa informação, em vez de a fa­zer círcular; compreende-se sempre demasiado tarde que um observador esclarecido não pode substituír-se a um colectivo lú­cido ... Philippe Perrenoud, obra citada infra

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