Post convidado de António José Leonardo, historiador de ciência sobre o intercâmbio científico internacional da Universidade de Coimbra (UC) no século XIX:Desde o início do século XIX que se foi sentindo a necessidade de efectuar reformas no ensino das ciências tomando como exemplo as instituições similares europeias. Estas tinham também o objectivo de conhecer as novidades científicas e permitir o contacto com professores eminentes e com os instrumentalistas, permitindo formar os congéneres portugueses nas novas técnicas e métodos e facilitar a aquisição de novos aparelhos, instrumentos e colecções científicas, fomentando o apetrechamento dos estabelecimentos de ensino portugueses.No âmbito do ensino das ciências físico-matemáticas, destacaram-se no princípio do século XIX as viagens de José Bonifácio de Andrada e Silva (entre 1790 e 1800), de João António Monteiro (Carta Régia de 9 de Julho de 1804, não tendo regressado a Portugal), Paulino de Nola de Oliveira e Sousa (com início em 1804), Sebastião Navarro de Andrade (em 1805) e Manuel Pedro Homem de Mello (entre 1801 e 1815). Andrada e Silva, ao longo dos dez anos da sua viagem, esteve na Itália, Alemanha, França, Bélgica, Holanda, Hungria, Noruega, Dinamarca, Inglaterra e Escócia, tendo contactado com os mais importantes cientistas da época, como Lavoisier, Humboldt, Volta, entre outros. António Monteiro distinguiu-se na mineralogia, trabalhando na Alemanha, onde frequentou as lições de Werner em Freiberg, na Áustria, em Inglaterra e em França, onde publicou muitas memórias tendo-se estabelecido em Paris. Paulino de Nola foi pensionado em Paris, Freiberg e Londres. Manuel de Mello era docente da Faculdade de Matemática e passou por muitos estabelecimentos científicos de vários países europeus, como França, Bélgica, Itália e Inglaterra, tendo, inclusivamente, estabelecido contactos com fornecedores de instrumentos, enviando alguns para a UC para serem utilizados nas aulas de Física Experimental e Hidráulica.O período de instabilidade em Portugal, durante e após as invasões francesas, impediu a realização de missões científicas ao exterior, no entanto notou-se um ressurgimento destas iniciativas já na década de 1850, no período da “regeneração”. Estes investigadores reportavam os resultados das suas missões através de relatórios, alguns dos quais foram publicados n’O Instituto.Um primeiro exemplo foi a viagem científica de Matias de Carvalho Vasconcelos, iniciada em 1857. Os objectivos eram diversos e estendiam-se do estudo dos novos métodos de Química prática, em particular os processos metalúrgicos, os desenvolvimentos da Física, nomeadamente no estudo do magnetismo terrestre e da meteorologia, e o conhecimento dos modernos aparelhos de medida em uso nos observatórios europeus. Apesar de ter estado na Inglaterra, Bélgica e Alemanha, Matias de Carvalho centrou-se em Paris, onde esteve durante mais tempo. Enviou três relatórios das suas viagens. O primeiro abordou o magnetismo e a meteorologia, de acordo com as visitas ao Observatório de Greenwich, em Londres, e ao Observatório Real de Bruxelas, onde participou activamente e em conjunto com Quetelet nos trabalhos de observação do eclipse de solar de 15 de Março de 1858. O segundo relatório incidiu na análise química de ligas metálicas estudada no laboratório da casa da Moeda em Paris. Neste mesmo relatório, Matias de Carvalho alertou o Conselho da Faculdade de Filosofia para a necessidade de adopção como novo manual para a cadeira de Química Orgânica o livro de Cahours dado este ter grande e merecida aceitação, correspondendo a um grau superior de instrução público. No último relatório, de 16 de Dezembro de 1858, Matias de Carvalho abordou os novos processos metalúrgicos e a mineralogia. Apesar da apenas ter regressado a Portugal em 1865, tendo ocupado o lugar de provedor da Casa da Moeda em Lisboa, não voltou a enviar relatórios apesar de ter continuado em representação oficial da UC e ter mediado a aquisição de vários instrumentos e exemplares de História Natural. Foi o único representante português no Congresso Internacional da Química que ocorreu em Karlsruhe em 1860, o primeiro congresso científico internacional que foi preponderante no desenvolvimento da Química como ciência.Também Francisco de Sousa Holstein, doutorado em Direito, realizou uma viagem pela Europa em 1859, visitando algumas universidades estrangeiras de onde enviou para a UC os seus regulamentos e estatutos, estabelecendo relações científicas e ajudando à troca de livros com a Universidade de Madrid. Um ano depois, Jacinto António de Sousa, da Faculdade de Filosofia, e Rodrigo Sousa Pinto, da Faculdade de Matemática, deslocaram-se a Espanha integrados numa comissão portuguesa para participar nas observações de eclipse solar de 18 de Julho de 1860. Finalizados os trabalhos, ambos os investigadores da UC partiram em viagem científica pela Europa, tendo Sousa Pinto como alvo os observatórios astronómicos, e Jacinto de Sousa os observatórios meteorológicos e magnéticos. Sousa Pinto os observatórios astronómicos de Madrid e de S. Fernando, em Espanha, de Paris, de Bruxelas e de Greenwich. Jacinto de Sousa visitou os estabelecimentos científicos de Madrid, Paris Bruxelas e Londres (Greenwich e Kew), lamentando-se por alguns se encontrarem fechados ou com os seu professores ausentes, por motivo de férias. Em Setembro regressou ao Observatório de Kew com o intuito de estudar o funcionamento e adquirir instrumentos para o futuro Observatório Meteorológico e Magnético da UC. Estes professores tinham a seu cargo, na altura, as cadeiras de Astronomia e de Física, respectivamente, o que subentende um impacto sensível das suas viagens no ensino destas disciplinas e a actualização científica dos seus docentes.Os professores da Faculdade de Medicina, António Augusto da Costa Simões e Ignácio Rodrigues da Costa Duarte viajaram com destino a Paris, em 1865, para estudar os processos práticos de histologia e fisiologia experimental, tendo também visitado alguns estabelecimentos na Alemanha. Esta viagem foi decisiva na criação de um gabinete de Fisiologia experimental em Coimbra, na qual foram adquiridos alguns dos mais modernos instrumentos.Em 1866, foi a vez de António Santos Viegas obter subvenção para uma viagem científica aos principais estabelecimentos científicos europeus no sentido de investigar a organização do ensino da Física e da Química, com especial ênfase na vertente da física experimental. No primeiro relatório, referente ao período de Dezembro de 1866 a Maio de 1867, Santos Viegas visitou a Universidade de Madrid, inferindo da disposição física dos amfiteatros que “o ensino se dá ainda pelo systema antigo, consistindo unicamente em prelecções oraes, com o auxílio do quadro para cálculos e construções graphicas, e acompanhadas, quando muito, da demonstração de um ou outro aparelho”. Em Espanha também visitou algumas escolas secundárias, designadas de institutos, relatando com pormenor a forma como estava estruturado este nível de ensino no país vizinho. Destacou a proximidade orgânica dos institutos com uma dada universidade central, destacando a carreira do professorado, em que um professor poderia ascender gradualmente desde um instituto de 3.ª classe até chegar a uma universidade central, de acordo com provas dadas. Nas universidades, os concursos eram abertos, especialmente, para cada cadeira, sendo o professor escolhido com base nas suas habilitações nessa área específica. Existiam então dez universidades centrais em Espanha. De Madrid partiu para Paris, onde conheceu os estabelecimentos de ensino superior, como a École Politechnique e o Collège de France, e frequentou cursos públicos de Física da Universidade de Paris/Sorbonne. Estes eram cursos semestrais para alunos dos 1.º e 2.º anos das escolas normais e para ouvintes voluntários. Suponham o conhecimento dos princípios gerais da física, adquiridos nos liceus, e neles já se fazia uso de projecção das lições por meio de luz eléctrica, uma inovação que Santos Viegas já tinha tentado em Coimbra. Aproveitou para fazer algumas encomendas de instrumentos de acústica junto de Koenig.O segundo relatório de Santos Viegas foi relativo ao período de Junho a Novembro de 1867, altura em que esteve na Inglaterra e Escócia. Visitou a Universidade de Londres, estabelecimento no qual apenas eram examinadas as aptidões dos indivíduos que aspiravam aos graus académicos, provenientes de outras universidades ou colégios , as Universidades de Oxford e Cambridge e outras instituições científicas, como a Royal Society, a Sociedade de Química e a Royal Institution. Já na Escócia visitou as Universidades de Glasgow e Edimburgo.Viegas teve o cuidado de descrever com algum pormenor os estabelecimentos anexos dedicados à investigação, como os observatórios, os gabinetes de física, os laboratórios de química e os jardins botânicos e museus naturais, com particular incidência nos seus instrumentos e colecções, tendo também adquirido alguns instrumentos de química. Em 1870, Santos Viegas efectuou uma segunda viagem científica, desta vez a Itália, para estudar espectroscopia com Secchi, numa altura que coincidiu com a entrada das tropas italianas em Roma, para preparação da observação do eclipse solar desse mesmo ano que seria visível no Algarve.Embora não se tratasse de uma viagem científica propriamente dita, em 1874 foi publicado n’O Instituto um “bosquejo histórico” relativos às faculdades de filosofia das universidades alemãs, da autoria de Bernhard Tollens. Este químico alemão e sócio do IC foi contratado como director dos trabalhos práticos de laboratório da UC, tendo permanecido em Coimbra no curto período de Abril de 1869 a Janeiro de 1870. Na sua memória, Tollens descreveu a evolução histórica das universidades na Alemanha, estabelecendo o conteúdo lectivo de uma Faculdade de Filosofia como “tudo o que não entra no quadro das Faculdades de Theologia, Direito e Medicina” . Apesar de referir o caso de alguns estabelecimentos onde a Matemática foi separada da Filosofia, como Portugal, na Alemanha tinha-se conservado o conceito mais alargado de Filosofia, partindo do ponto humano para o domínio das ciências naturais e incluindo as Letras (com a excepção da Universidade de Tuebingen). Os estudantes alemães tinham total liberdade na escolha das cadeiras que desejavam frequentar, sendo estas pagas separadamente, podendo seguir o percurso que desejassem. Tollens apresentou um quadro contendo a forma como se distribuíam, na generalidade, as disciplinas leccionadas nas Faculdades de Filosofia, divididas pelas áreas principais de Ciências Filosóficas ou Letras (que incluíam a Filosofia, Matemáticas, Linguísticas e Literaturas, História e Ciências auxiliares, História das Artes e Ciências Cameralísticas) e as Ciências Naturais ou simplesmente Ciências (que incluíam a Zoologia, Botânica, Mineralogia, Astronomia, Física, Meteorologia, Química, Farmácia, Agricultura), perfazendo um total de 68 cadeiras. De seguida, Tollens descreveu os estabelecimentos especiais das Faculdades de Filosofia, como: observatório astronómico, jardins zoológicos e botânicos, museu de história natural, gabinetes de física e observatório meteorológico, laboratórios de química, dispensário farmacêutico, academias agrícolas e biblioteca.António José Leonardo
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Viagens científicas a estabelecimentos de ensino europeus no século XIX
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