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Então e a alma?

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“Conhece alguém as fronteiras da sua alma para que possa dizer – eu sou eu?” (Fernando Pessoa, 1888-1935).“Então e a alma?”- questão levantada por Brigitte, aluna de uma escola primária francesa, ao médico francês Jean Bernard.Esta angustiante pergunta, transcrita numa das páginas de um pequeno mas notável livro do presidente da Academia de Ciências de França, Jean Bernard ("Europa-América, 1988), quando explicava a Brigitte e às suas pequenas colegas o funcionamento do sistema nervoso, serviu de sugestivo título ao seu autor.Perpassa pelas suas 176 páginas, que releio como o mesmo prazer com que o fiz anos atrás, uma extraordinária simplicidade de escrita que só o pensamento linear e bem fundamentado dos cientistas com as ideias bem digeridas na matéria que dominam consegue transmitir.Da sua apaixonante leitura, colhi a informação de um luminar da hematologia mundial (director do Instituto de Investigação sobre as Leucemias e as Doenças do Sangue em que foram feitas as primeiras curas de leucemias agudas) sobre a necessidade de um respaldo abrangente e ecléctico da Filosofia e da própria Religião na abordagem de assuntos de natureza científica.Segundo, I.M. Bochenski (La Philosophie Contemporaine en Europe) “o pensamento do filósofo tem o efeito do dinamite (…) aquilo que os filósofos anunciam hoje será a crença de amanhã”. Visão diferente tem o nosso festejado filósofo Delfim dos Santos (1907-1966): “No pensamento de cada filósofo há algo de vivo e algo de morto e o morto é quase sempre o científico”. Por seu turno, o autor do livro, Jean Bernard, diz-nos que “os filósofos clássicos foram durante muito tempo os únicos a ocupar o terreno: brilhantes, firmes certos da verdade, recusando a crítica, aproximativos, utilizando as palavras essenciais com sentidos diferentes”. E logo acrescenta: “Os filósofos modernos, muito mais abertos, aceitam o diálogo”. Por vezes, em resposta à questão que elaboro sobre o que se entende por pensamento, deparo-me com o silêncio de uns tantos interlocutores ou a facúndia sem nexo de outros tantos. Contemplando e ampliando a tese cefalocentrista, que remonta a tempos de Platão e Hipócrates, segundo a qual “o pensamento tem a sua sede no cérebro do homem”, respondo ser o complexo funcionamento da máquina humana e não só do cérebro, pois, segundo Ernest Kretshemer, “o homem pensa com o corpo todo”.Opinião que deve merecer o descrédito de adeptos do vitalismo (como se o cérebro como qualquer outro órgão do corpo humano não fosse matéria corpórea) que se recusam a ver no homem um animal, a exemplo do literato François- René Chateaubriand (1768-1848), quando escreve com fervor religioso: “Se nos é permitido dizer, é, parece-nos, uma grande pena encontrar o Homem mamífero classificado, depois do sistema de Lineu, com os macacos, os morcegos e os pássaros”. E, logo, para evitar uma possível subordinação a um ateísmo, que não perfilho, digo que a expressão literária de pensamento (tida por Alexandre Herculano de inspiração divina: “Foi depois disto que este nome e esta imagem [de Leonor] me apareceram como um pensamento do céu”), assume, por vezes, o significado de alma, ao invés da significância de processo de raciocínio lógico, através de uma actividade psíquica consciente e organizada.Para consubstanciar o conceito de pensamento, acrescento que o perspectivo em termos de Ciência e não de Teologia, até porque “para aqueles que crêem nenhuma explicação é necessária; para aqueles que não crêem nenhuma explicação é possível”, como nos transmitiu Santo Inácio de Loiola. Já o padre João Resina, sócio efectivo da Academia de Ciências de Lisboa, na sua dupla formação científica (licenciado em Engenharia Química pelo IST em 1953, e professor jubilado de Física dessa mesma escola) e teológica (ordenado padre em 1959 e doutorado em Filosofia pela Universidade Católica de Lovaina), escreve: “A Religião não recebe nada da Ciência, esta é uma compreensão exigente e sóbria do mundo que nada tem a ver com valores que implicam opções ‘ na solidão da liberdade’; a Ciência revela-nos possibilidades insuspeitadas de nós próprios”. Consequentemente, em meu entender, ciência e religião não são susceptíveis de seguirem um caminho interdisciplinar: aquela vive de dogmas; esta de hipóteses.Aliás, no próprio domínio das ciências, em estranho paradoxo, cada vez se fala e defende mais a interdisciplinaridade, mas, na prática do dia-a-dia , ela é entendida como uma espécie de utopia. Para Edgar Morin, esse gigante do pensamento moderno, a interdisciplinaridade não tem o viço das árvores frondosas por ausência de raízes fortes. Escreve ele: “Sabemos cada vez mais que as disciplinas se fecham e não comunicam umas com as outras. Os fenómenos são cada vez mais fragmentados e não se consegue conceber a sua unidade .É por isso que cada vez mais se diz façamos interdisciplinaridade, mas ela controla tanto as disciplinas como a ONU as nações. Cada disciplina pretende primeiro fazer reconhecer a sua soberania territorial e, às custas de algumas magras trocas, as fronteiras confirmam-se em vez de se desmoronarem”.Contra a torre de marfim do conhecimento pronuncia-se, de igual modo, o filósofo Georges Gusdorf (1912-2000), antigo professor da Universidade de Estrasburgo, quando escreve: “A unidade do saber, nunca dada, propõe-se como uma tarefa a empreender. Como uma tarefa impossível, talvez, e desencorajante de qualquer modo. Mas esta tarefa define a mais alta exigência da cultura. Desde então, a atitude do especialista, quer seja matemático ou botânico, filólogo ou historiador, que se debruce ciumentamente sobre o estrito comportamento da sua própria competência, deve ser considerado como uma demissão. Qualquer dissociação do conhecimento é uma negação do conhecimento. O dever presente é trabalhar para reunificar, para dar corpo aquilo que um século de análise desmembrou. O pressuposto da especialização deve dar lugar ao pressuposto da convergência Ciências e Letras, Ciências da Natureza e Ciências do Homem, que pareciam votadas a caminhos distintos, devem tomar consciência, cada uma por seu lado, que são como paralelas que, sem se afastarem da sua própria direcção, se encontram no infinito”. Por consequência, Ciência, Filosofia e Religião não têm sido contempladas por um estudo interdisciplinar: aquelas vivem de incertezas, esta não admite dúvidas. Apesar de tudo, os cientistas ostentam, com toda a propriedade, o brasão prestigioso das grandes conquistas tecnológicas do nosso tempo. Pois não viaja o homem já hoje para fora do planeta Terra? É a altura de dar a palavra a Charles De Gaulle: “É bem possível que um dia se vá à Lua, mas isso não é ir muito longe; a maior distância a percorrer está dentro de nós!” Há muitos anos que o homem chegou à Lua. Próximo passo será pisar o solo marciano. E os caminhos a percorrer dentro dele próprio? Não estará ainda por cumprir a velha máxima socrática “nosce te ipsum” (conhece-te a ti mesmo)? Os dois e únicos transplantes de caras inteiras desfiguradas, um deles realizado na nossa vizinha Espanha, não nos dão, ainda, esperanças sobre a possibilidade de transplantes cerebrais que mudariam a personalidade das pessoas descrita no livro de Jean Bernard, através de uma história de amor. Escreve ele:“Pierre ama Jeanne. Jeanne, após um acidente, fica sem um braço. Um braço estranho é enxertado em substituição do braço amputado. Pierre continua enamorado de Jeanne. Mas Jeanne, um pouco mais tarde, padece de uma grave doença renal. Tenta-se um transplante renal e é bem sucedido. Pierre continua enamorado de Jeanne. Novo acidente. Queimaduras extensas. São necessários grandes enxertos de pele. Mais tarde, ainda, verificam-se sérias alterações no coração de Jeanne. Encara-se um transplante de coração. Pierre continuará enamorado de Jeanne? Esta pobre Jeanne com um braço estranho, uma pele estranha, um coração estranho, será ela ainda a Jeanne que ele amou? Quantos órgãos, quantos tecidos, Jeanne pode trocar continuando a ser amada? Quantos quilos, quantos metros quadrados, poderá ela substituir continuando, no entanto, a ser a mesma?”Para Jean Bernard “só a engenharia genética pode mudar a pessoa, pela transformação do património genético do indivíduo”. Ora, Jeanne não foi transplantada na sua massa encefálica que, a ser possível, lhe mudaria a personalidade e todo um passado de vivências mais ou menos ricas ou pobres, mais ou menos felizes ou traumatizantes.Julgo poder extrair-se daqui a seguinte lição. Na medida do possível, embeleze-se o rosto desfeado, esbelte-se o corpo disforme, recorra-se a todos os meios da moderna e milagrosa cirurgia de transplantes ou apenas reconstrutiva. Mas continue a amar-se a pessoa naquilo que ela é na actualidade, longe mesmo do que ela foi fisicamente no passado. Com ígnea paixão!Se Jeanne pudesse ter sido transplantada com um novo cérebro seria ela a mesma pessoa, continuando a ser amada apaixonadamente por Pierre?

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