Com a devida vénia publicamos, como de outras vezes, a crónica do médico José Luís Pio de Abreu que saiu no "Destak" de hoje:Antes do século XVII, os médicos europeus prescreviam a sangria por tudo e por nada. Na verdade, eram tão incompetentes como grandiloquentes. Agarrados aos dogmas, pouco mais sabiam do que profetizar a desgraça com nomes sonantes ou prescrever sangrias.E mesmo estas eram executadas por barbeiros de casta inferior, pois os sacrossantos médicos não podiam sujar as mãos com o sangue dos desgraçados.No século XVIII, as coisas começaram a mudar por várias razões. Primeiro, os barbeiros tornaram-se cirurgiões e médicos, confiando mais na observação directa do que nos dogmas.Segundo, descobriu-se que a cólera vinha da água contaminada. Pasteur e a imunização viriam a seguir e, só no século passado, passaríamos a dispor dos antibióticos. Identificados os agressores – vibriões, bacilos, cocos, riquétsias, vírus – existem hoje várias formas de nos defendermos. A sangria desactualizou-se.Parece que também existem comunidades – instituições e países – que estão doentes. Os seus médicos – os economistas – só sabem profetizar desgraças ou receitar sangrias. Do cimo da sua arrogância e dos seus dogmas, também eles entregam a sangria nas mãos da casta inferior dos políticos. Entretanto, vão-se conhecendo os nomes de alguns agressores: short-selling, naked CDSs, agências de rating, edge funds e outros. O remédio, porém, parece ser sempre o mesmo: sangria.Não se percebe porque é que os tratamentos dos economistas são tão básicos. Mas há quem lembre que os médicos privados podem ganhar mais com a doença do que com a saúde dos outros.J.L. Pio Abreu
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A sangria
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