Dizíamos na introdução que o marco conceptual dos estudos que examinam a relação dos comportamentos instrutivos do professor na aula com os resultados de aprendizagem dos alunos (serão considerados se e somente se esses comportamentos manifestarem concomitância com os resultados) é proporcionado pelo paradigma processo-produto. Aludimos também à frequente consideração desses estudos como estudos sobre a eficácia docente ou eficácia do professor.Contudo, é necessário advertir que o paradigma processo-produto não é o único marco conceptual acolhido pelos estudos de eficácia docente, ainda que seja certo, também, que é por excelência o marco conceptual que os acolhe, daí sua denominação como "paradigma do critério de eficácia" (Villar, 1980). A explicação reside em que necessita ser definido o que é que constitui a eficácia do professor. Para Postic (1978),"cada um forma uma imagem do bom professor a partir de teorias da educação, de valores morais, sociais e também de modelos conscientes e inconscientes. Segundo as opções educativas e metodológicas, os critérios do bom docente estão submetidos a variações" (p.16).Isto quer dizer que não poder haver critérios compartilhados de eficácia docente? Toda concepção sobre a eficácia do professor leva implícita uma concepção de valor. A eficácia não é um valor em si mesmo, mas um valor referente à resposta à pergunta: eficaz para quê? Assim, em função do marco conceptual no qual nos situemos, responderemos à pergunta de uma ou de outra maneira, selecionaremos alguns outros aspectos do complexo fenômeno de ensino e trataremos de averiguar qual é o professor eficaz para essa concepção do ensino. Simultaneamente, mediante a pesquisa, pode-se ir reformulando essa concepção primeira e configurando outras concepções de eficácia docente. Os trabalhos sobre modelo de professor e modelos de formação de professores, nos quais não podemos agora nos deter, são um bom expoente das distintas concepções a partir das quais se pode falar de um professor eficaz, de como a concepção da eficácia do professor não é patrimônio exclusivo de um único paradigma e de como condicionam as concepções acerca do que entende por bom professor a orientação da formação do professorado (ver Darling-Hammond, Wise e Pease, 1983; Gimeno, 1983; Montero, 1985; Pérez Gómez, 1988; Zeichmer, 1983, 1985a).Para Brophy e Good (1986), um dos fatores que contribuíram para um lento desenvolvimento da pesquisa sistemática sobre o comportamento do professor associado com o resultado do aluno foi, justamente, a diferente conceituação da eficácia do professor. Nesta linha, Medley (1979, pp. 11-27) identificou cinco conceituações sucessivas de professor eficaz, que refletem a evolução da concepção da eficácia docente pelos pesquisadores. Estas são:a) possuidor de certos traços ou características de personalidade desejáveis;b) usuário de métodos eficazes;c) criador de um bom clima de aula;d) dominador de um conjunto de competências;e) professor capaz de tomar decisões em função não somente de um domínio de competências, mas da utilização adequada destas na situação do ensmo.Examinaremos brevemente estas conceituações, com o fim de dispor de uma perspectiva diacrónica na análise da eficácia docente:a) Os estudos dirigidos à identificação das características de um professor eficaz são conhecidos como estudos presságio-produto (chamados também de função de produção - Escudero, 1980). São estudos dirigidos à obtenção de avaliações (variáveis produtos) procedentes de alunos e de peritos (inspetores e diretores) sobre os riscos (variáveis presságio) que caracterizam um bom professor. As variáveis presságios, identificadas pelos distintos estudos, referem-se a características tais como "cooperação", "magnetismo pessoal", "aparência pessoal", "amplitude e intensidade de interesse", "prudência e liderança", qualidades pessoais consideradas como pré-requisitos para o êxito no ensino.Medley assinala que nenhum dos estudos presságio-produto trouxe alguma evidência que permitisse constatar que os professores que possuíam estas características eram realmente mais eficazes, no sentido de serem mais capazes de ajudar os alunos a conseguirem objetivos, do que os que careciam delas. Para Brophy e Good (1986, p. 329), este enfoque produziu algum consenso sobre as características desejáveis em um professor, porém não trouxe informação sobre os vínculos entre os comportamentos instrutivos específicos do professor e a medida do rendimento do aluno (contudo, alguns de seus achados serão confirmados depois por estudos processo-prod u to).b) A busca da eficácia do professor centrou-se na busca dos métodos eficazes, ou seja, daqueles métodos que produziam nos alunos melhores resultados de aprendizagem. Por isso, foram projetadas situações experimentais típicas, nas quais uma ou mais classes recebiam o ensino por diferentes métodos. A comparação das médias obtidas permitiria mais tarde identificar o método mais eficaz. Aconteceu assim? Não. A maioria destes experimentos produziu resultados inconsistentes e contraditórios, devido ao fato de que as diferenças entre os métodos não eram suficientemente significativas para produzir diferenças nos resultados de aprendizagem dos alunos, ao que se acrescentava que, quando apareciam diferenças significativas, estas tendiam a contradizer-se. Para Medley, a explicação reside em que a unidade de análise foram os alunos individuais, antes que a classe. Para que se produzisse uma generalização consistente dos achados, muitos professores teriam que ensinar com cada método, o que não ocorreu. Em conseqüência, nenhum comportamento específico do professor pôde ser associado inequivocamente com o rendimento do aluno, e os esforços por identificar o professor eficaz, como aquele que utiliza determinados métodos de ensino, não deram fruto.c) e d) Progressivamente, com a compreensão de que a pesquisa sobre a eficácia do professor devia estar centrada mais especificamente nos comportamentos instrutivos do professor (aquilo que o professor faz em aula) e nos efeitos desse fazer nos alunos, a pesquisa processo-produto generalizou-se. Durante os anos cinqüenta e sessenta, o foco situou-se na identificação dos padrões de comportamento estáveis, denominados "estilos de ensino" (ver o capítulo 15 deste volume) ou" dimensões do clima da aula", e nas competências de ensino implicadas na melhora do rendimento do aluno. A metodologia utilizada foi a observação sistemática dos comportamentos dos professores nas aulas. Esta decisão deu lugar à produção de uma diversidade de sistemas de observação sistemática da aula, dealta e baixa inferência de categorias ou signos (ver Borich e Madden, 1977; Rosenshine e Furst, 1973; Simon e Boyer, 1974). O passo posterior foi o de pôr em relação estes comportamentos com a medida do rendimento do aluno, a fim de fazer avançar a pesquisa processo-produto (desenvolvimento de estudos correlacionais)e) Finalmente, definiu-se o professor eficaz como aquele que domina um conjunto de competências (atitudes, habilidades, conhecimentos) que permitem realizar um ensino eficaz. O que é que distingue as competências dos estilos? A resposta parece residir na maior permanência do' estilo e a dependência da competência das circunstâncias específicas que exigem colocação prática. Assim, a habilidade dos professores para fazer perguntas de alto nível é uma competência; a clareza não o é. Enquanto há ocasiões nas quais as perguntas de alto nível podem ser inadequadas, a clareza é sempre adequada. A pesquisa sobre competências deve dar conta não somente do como, mas do quando e do porquê. Vem daí o fato de que a metodologia da pesquisa implique a atenção para três variáveis: medidas de comportamento do professor mediante instrumentos de observação sistemática da interação na aula; medidas da eficácia do professor baseadas na aprendizagem do aluno, e informação sobre a intenção do professor.inMontero, María (1996). Comportamento do professor e resultados da aprendizagem: análise de algumas relações. In Coll, Palacios e Marchesi. Desenvolvimento psicológico e educação. Porto Alegre: Artmed
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