Se tivesse de listar as dez palavras de que menos gosto, sem dúvida que "motivação" figuraria entre elas! Quando eu quero precisar alguma coisa acerca dos interesses dos alunos, do seu investimento no trabalho escolar e nas aprendizagens, da sua relação com o saber, nunca é essa a palavra que me ocorre. Porquê? Trata-se de uma palavra oca. Dizer de alguém que está motivado sugere que a pessoa tem boas razões para fazer o que faz. Por que é que o faz? O mistério mantém-se. "É interessante a sociologia do interesse?", interrogava-se Caillé [1981]. Não, respondia, porque não explica nada. Não há dúvida que qualquer actor que se empenhe numa detenninada prática ou decisão é porque tem por ela algum interesse. Reiser dizia: "Quando reconhecemos o que sabemos e reconhecemos o que vemos, não nos podemos impedir de pensar o que pensamos." Nem, acrescentaria eu, de fazer o que fazemos. Mas por que é que se reconhece o que se sabe e se reconhece o que se vê? Numa perspectiva construtivista, é isso o essencial. Na escola, e muitas vezes também na vida, a motivação é geralmente invocada quando não existe; estamos no registo da necessidade, das carências, do handicap, da privação: basta ler algumas fichas de avaliação escolares para constatar que "a falta de motivação" é um lugar comum sempre presente na constatação do insucesso, na estigmatização do aluno que não participa no jogo pedagógico, na busca de uma "explicação" que dispense a escola de procurar mais longe, e até na rejeição da responsabilização das famílias. Quando não se sabe o que dizer acerca de um aluno pouco activo, diz-se que "não está motivado". Que poderão fazer os pais face a este diagnóstico? A falta de motivação pode-se tratar? De quem é a culpa? Sugere-se muitas vezes que a motivação é uma característica da pessoa ou da personalidade, qualquer coisa de durável; somos "motivados para as línguas estrangeiras" da mesma fonna que temos "queda para a matemática", como se já tivéssemos nascido assim ... Eu resisto a esta análise, pugnando por uma perspectiva que ligue a motivação, não apenas à pessoa, mas mais à relação, à interacção, à situação. A motivação é um conceito que tem essencialmente a sua origem na Psicologia. Logo, as necessidades, os desejos, as vontades, os interesses provêm tanto de uma abordagem antropológica como sociológica, em termos de pertença a uma comunidade, a uma cultura, a uma classe social, a uma organização, em termos também de estratégias dos actores, de relações de poder, de conformismo, A motivação parece escapar ao sujeito e este ser um seu joguete; mas, quanto a mim, ela provém, em grande parte, das próprias estratégias do sujeito [Perrenoud, 1988a, capítulo VI desta obra]. Qualquer actor com alguma experiência doseia o seu investimento na acção em que se envolve e, principalmente, no trabalho escolar, em função das necessidades que sente e dos fins que se propõe atingir. Nem sempre é necessário que o indivíduo esteja "motivado" para se esforçar. Certamente que o facto de estar motivado impede o aborrecimento mas é, ao mesmo tempo, um gasto de energia ou, até mesmo, um assumir de riscos. Cada qual pondera vantagens e inconvenientes e, até um certo ponto, pode "escolher" ser ou parecer passivo ou activo, aborrecido ou interessado. Pode-se autopersuadir a fazer qualquer coisa a que, cinco minutos antes, se recusara, ou enfastiar-se activamente de qualquer coisa por que antes se apaixonara. Cada qual navega como pode, de forma bastante oportunista, em função da energia de que dispõe e daquilo que a sua atitude lhe pode valer. A preguiça e o desinteresse escolar são, para alguns alunos, estratégias perfeitamente adequadas, uma vez que o facto de estarem "motivados" não lhes traria qualquer benefício, enquanto que outros "se esfalfam", seja em que actividade for, unicamente para conservarem a estima e os favores do professor! Face às diversas razões apresentadas, sugiro uma opção de método: tentemos "libertar-nos" das imagens feitas, associadas ao conceito de motivação e tentemos encontrar uma outra linguagem e uma outra perspectiva menos normativa, mais construtivista e interdisciplinar. Proponho-me, por isso, falar do sentido do trabalho, dos saberes, das situações e das aprendizagens escolares, esboçando três teses sobre o assuntoi) O sentido constrói-se; não é dado a priori.ii) Constrói-se a partir de uma cultura, de um conjunto de valores e de representações.iii) Constrói-se em situação, numa interacção e numa relação. Face à máquina escolar, à omnipresente intenção dos adultos em instruírem, para o seu bem, as crianças e os adolescentes [Perrenoud, 1984, 1986; capítulo III deste livro], os alunos não têm a vida facilitada. Num sistema tão limitativo como é o da educação obrigatória, os alunos estão condenados a utilizar estratégias de actores dominados, face a um sistema que lhes deixa reduzidíssimas possibilidades de escolha, que lhes impõe um número impressionante de coisas absurdas, incompreensíveis ou penosas que não correspondem, de uma maneira geral, aos seus desejos do momento. Na instituição escolar, aprende-se a jogar com as normas e com as aparências, ainda que os professores tenham dificuldade em aceitar estas verdades! É por isso que a construção do sentido é ao mesmo tempo vital- para assim se sobreviver longos anos - e difícil. Essa construção passa por um verdadeiro trabalho mental, que ninguém pode fazer no lugar do aluno, porque o sentido se liga à sua própria visão da realidade, à sua própria definição do que é coerente, útil, divertido, justo, aborrecido, suportável, necessário, arbitrário ... Podemos, contudo, tentar facilitar este trabalho, concedendo ao aluno um espaço de iniciativa, de autonomia, de negociação, de indecisão, de sonho. Quer o saibam ou não, as pedagogias activas, cooperativas, diferenciadas apenas têm força se permitirem, no espírito dos alunos e talvez mesmo no dos professores, uma outra construção de sentido ... Philippe Perrenoud, Obra citada infra
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Do Trabalho escolar e motivação
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