Minha crónica no "Público" de hoje:Nunca José Sócrates esteve tão só. E há boas razões para ter sido votado ao abandono pelo eleitorado, como é manifesto nos números de sondagens recentes. Nós demos-lhe, nas últimas eleições legislativas, o benefício da dúvida. E ele, à semelhança aliás do que aconteceu em eleições anteriores com outros primeiros-ministros, deu-nos, em troca, o malefício da dívida. Não, o país, há muito endividado e sem força anímica, não mudou. E a governação do país também não. Ainda está para nascer um político que, nas vésperas de ir a votos, nos fale a verdade. E nos fale dos juros verdadeiros em vez de nos encher de juras falsas.O primeiro-ministro japonês, Yukio Hatoyama, acaba de anunciar a sua demissão, ao fim de oito meses de governação, alegando que as pessoas “deixaram de o ouvir”. Entre nós é notória uma quebra de confiança com contornos semelhantes, que vem agravar os nossos males tanto externos como internos. Quando ouvimos o nosso primeiro-ministro dizer – e foi há muito pouco tempo - que não ia subir os impostos e hoje o vemos faltar à palavra dada, ainda por cima com efeitos retroactivos, ficamos na dúvida se amanhã não vai ser pior. No Parlamento ou noutro sítio raramente tem apresentado argumentos seguindo uma linha coerente, antes se limitando a invectivar os adversários (uma táctica que obviamente não resulta quando não se tem a maioria absoluta). Da última vez não esteve sequer a defender o agravamento fiscal, deixando só o ministro das Finanças. Em clara fuga à solidão doméstica, entrou num ziguezague no estrangeiro. Não é apenas penoso ouvi-lo falar portunhol em Madrid, também o é vê-lo, mais uma vez, em Caracas, a vender computadores Magalhães ao seu amigo Hugo Chávez. No Rio de Janeiro, primeiro pediu um cafézinho e um bate-papo a Chico Buarque (podia ter mandado uma mensagem: “Meu caro amigo me perdoe, por favor / Se eu não lhe faço uma visita / Mas como agora apareceu um portador / Mando notícias nessa fita (...) Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta.”) e depois retirou um convite para jantar a Caetano Veloso. E quem se anima por sabê-lo em Marraquexe a exportar para Marrocos o TGV que não temos nem vamos ter tão cedo, porque a Espanha deve entretanto adiar o projecto?Hatoyama saiu por causa da manutenção de uma base militar, que ele na campanha eleitoral tinha prometido transferir, e por causa de casos indecorosos que abalaram correligionários seus. Uma questão de honra, portanto. Mas, por aqui, nem falsas promessas nem escândalos fazem cair governos. O primeiro-ministro português está só, divorciado do país por causa das falsas promessas. Mas está também mal acompanhado, como transparece dos vários escândalos que o atingem. Uma das suas companhias é um deputado que, qual vulgar carteirista, surripiou gravadores a jornalistas em pleno Parlamento sem ser alvo de qualquer censura por parte dos seus pares. Outra das suas companhias é um ex-bancário e agora banqueiro que o informava por SMS, em tempo real, das saídas dos locutores numa televisão privada. Outra ainda das suas companhias é o secretário de estado do Emprego, que, formado nas mentiras do “eduquês”, não aceita as estatísticas da União Europeia sobre o desemprego, negando a aflitiva realidade dos cada vez mais portugueses sem trabalho. Os três, apesar dos escândalos, mantêm os seus chorudos empregos (o informador continua a receber um salário de truz, apesar de o banco o ter suspenso de funções). Poderá dizer-se que são pequenas ofensas aos bons costumes comparadas com as dos japoneses. Há-as, porém, aqui bem maiores, algumas com afloramentos nos casos apontados.Sócrates encontrou lenitivo para a sua solidão no “tango” com o novo líder da oposição. Estará, desta vez, em boa companhia? O que sucederá no fim da dança? Muitos eleitores, conhecedores do comum tirocínio nas juventudes partidárias e da comum licenciatura em universidades privadas, receiam que o futuro primeiro-ministro não seja muito diferente do actual. Oxalá estejam enganados.
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SÓ E MAL ACOMPANHADO
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