Guilherme Valente enviou-nos esta resposta, mais longa do que é normal num comentário, a um comentário de Carlos Albuquerque ao seu artigo anterior sobre o eduquês. Porque o De Rerum Natura gosta de polémica civilizada, destacamos aqui a resposta:Prezado Amigo:Suponho que terá escrito o seu comentário a que me refiro antes de ler os dois pequenos textos que coloquei no De Rerum Natura, que me parecem esclarecer as questões que me colocou. Outro comentário entretanto publicado é também esclarecedor. De qualquer sinto dever-lhe a cortesia de uma minha resposta.Permita-me a imodéstia de supor que se o meu Amigo, com a inteligência que visivelmente tem, tivesse lido os inúmeros artigos que escrevi (se não, não se preocupe…) saberia identificar o corpo de ideias, a praxis, os objectivos e os efeitos terríveis do que decidimos designar com a expressão eduquês.Podíamos ter escolhido outra expressão, por exemplo: pedofascismo, logofobia, PITC (pedagogia irracionalista totalitária em curso), LPEC (loucura pseudoeducativa em curso). O eduquês gosta muito de siglas, o que é outra maneira possível, embora não rigorosa, de o identificar: veja como as siglas inundam e tornam ainda mais ilegível os documentos escritos em eduquês emitidos pelo Ministério da Educação – só com glossário…).Como sabe o termo eduquês foi criado, num momento de génio, por Marçal Grilo para designar a linguagem incompreensível (geralmente vazia mas pretensiosa, pouco letrada, na realidade frequentemente tonta, digo eu) dos autodenominados especialistas em «ciências» da educação (ponho aspas nas ciências por considerar que a generalidade do que produzem de ciência não têm nada). E nós adoptámos (e fixámos) o termo para designar não apenas a forma, mas também o conteúdo.Como não é praticável (nem lhe recomendaria que o fizésse…) pô-lo a ler os meus artigos, sugiro-lhe que consulte o livro de Nuno Crato O Eduquês em Discurso Directo. Como o título indica, nele encontrará o eduquês expressivamente explicado pelos próprios representantes. E, como receio que algum dos nosso leitores pense que estou a querer vender-lhe um livro que editei, o que não é verdade, terei muito gosto em oferecer-lhe um exemplar.De qualquer modo, sem grandes preocupações de estilo, que não tenho agora tempo para isso, digo-lhe que o eduquês é uma mistura sincrética (note bem, sincrética - perdoe-me o jargão filosófico, que queria evitar) de duas componentes: uma ideologia ou mundovisão totalitária e as chamadas novas teorias pedagógicas, que na verdade são velhíssimas, geralmente deficientemente compreendidas e veiculadas sobretudo por correntes até há pouco dominantes na sociologia da educação. Com pais fundadores e fontes de inspiração recente bem referenciados, de Rousseau a Bourdieu, para referir o mais próximo e talvez mais emblemático em Portugal. Ente nós o meu Amigo conhece certamente os nomes dos seus sacerdotes).Quanto à ideologia, se a quisermos dessincretizar da pedagogia para a podermos mais facilmente identificar, encontramo-la nos vários extremismos igualitários, das utopias milenaristas, às seitas apocalípticas, passando, numa versão ainda mais trágica, pelos totalitarismos mais recentes, reacções irracionalistas à modernidade, afinal.Como saberá, o eduquês foi importado -- tarde, como acontece sempre em Portugal, quando lá fora já eram conhecidas as suas consequências e começava a ser fortemente contestado. Entre nós soube usar, numa mistura explosiva, o pior da mais velha cultura portuguesa: num país estatizado, centralizado e súbdito como o nosso, com um baixíssimo nível de instrução, sedento de emprego, de estatuto e de poder, conquistado o Ministério da Educação, usando o nepotismo e o medo, infestou tudo, teve o efeito de uma bomba atómica, destruidor da inteligência e da vontade das nossas crianças, condenando uma parte enorme delas à ignorância, ao analfabetismo (ou, se preferir um termo eduquês nada inocente, à iliteracia), ao abandono escolar intolerável, à exclusão e à delinquência, tragédia que hoje só a cegueira fanática, o medo, ou a cega avidez de manter o tacho e o estatuto não deixam ver.Sempre telegraficamente, sem preocupação de estilo e com o sacrifício de algum rigor de exposição (estou a escrever, com pressa, para um blogue) dou-lhe ainda as seguintes pistas (a listagem não é exaustiva, note bem) para identificar o eduquês, pistas que acrescento às que foram muito claramente enunciadas por outro comentador:Espírito de seita, irracionalismo, ódio ao mérito e ao «saber letrado», à liberdade, à autonomia individual, à pluralidade, à sociedade aberta, horror à avaliação, desprezo pelo conhecimento que distingue e eleva, menosprezo pelo papel do professor, rejeição da hierarquia – para o eduquês o aluno é igual ao professor -- e da autoridade assente na responsabilidade, no conhecimento e no mérito (excepto a sua própria autoridade, dos que impõem o eduquês, dos intérpretes iluminados tal «vontade geral» rousseauniana que, finalmente, harmonizaria a sociedade e a humanidade -- desculpe o recurso especializado à «tal vontade geral»; publicámos um bom livro em que a ideia é claramente explicada, Rousseau e Outros Cinco Inimigos da Liberdade)Rejeição e aniquilamento da escola enquanto «ascensor social» (dizem, como sabe, que reproduz as desigualdades da sociedade burguesa… na verdade é a solução mais eficaz e universalmente acessível para as ultrapassar e realizar a mobilidade social); do conhecimento que conta; da educação para a urbanidade(veja-se o papel que o eduquês dá à indisciplina e mesmo à violência), que geraria uma convivência «interclassista», no dizer do eduquês, que o eduquês não não tolera;Substimação, na verdade rejeição, enfim, dos valores e da cultura que diz «burgueses», valores e cultura que permitem a ascensão social, o progresso e a distinção pessoais, com que o eduquês não se preocupa (excepto quando está em causa a formação dos próprios filhos, como é fácil provar…).A ideia de que todos os saberes se equivalem, humana, social e explicativamente(epistemologicamente), com o mesmo estatuto e natureza, a ciência igual à magia, por exemplo.A ideia sempre insidiosamente glosada de que se pode aprender sem esforço. O cultivo da atrofia da memória, ignorando que só é possível pensar com informação (como escreveu Carl Sagan: «Saber não equivale a ser-se muito esperto, a inteligência é mais que informação; é, simultaneamente, discernimento e capacidade de utilizar e coordenar a informação. E, todavia, a informação a que temos acesso é o índice da nossa inteligência.» [sublinhado meu]).O encorajamento irresponsável da indisciplina, que é vista como manifestação saudável de ressentimentos, ligados à desigualdade social, e de libertação (esquecendo que as crianças não são insectos e que, por isso, sabem distinguir entre o bem e o mal). A ideia, ERRADA, ERRADA, intelectual e culturalmente indigente, de que a escola igualitarista produz a igualdade na sociedade.Direi ainda, recorrendo de novo a mais uma distinção tão expressivamente descrita por Sagan, que o eduquês valoriza, em suma, o que é da parte reptiliana do cérebro humano, e estigmatiza o que é do córtice cerebral, que controla a nossa vida consciente, que produziu o nossa civilização. É esta parte distintamente humana do nosso cérebro (sentimento os animais também têm), em que lidamos com a música e a matemática, fonte da consciência e da moral, que impele o homem para o conhecimento e para a solidariedade, distinção da nossa humanidade, ímpeto indomável, destino inapelável do Homem. Que nenhum obscurantismo poderá alterar… A enumeração não pararia. Mas, sobretudo, uma repugnante ultrareaccionária visão do ser humano: vêem-no inapelável e definitivamente encerrado, determinado, pela situação social. Esquecem ou ignoram a inteligência, a liberdade e a vontade humanas, fontes de imprevisível novidade. Em todas as circunstâncias, mesmo nas mais desfavoráveis.Por isso odeiam a inteligência e o espírito de liberdade, que nenhum totalitarismo ou fanatismo conseguiu até hoje exterminar, seja com escolas ou campos de morte. Inteligência e liberdade e vontade que os impedem de nos meterem a todos, e à realidade toda, na ideologia.Poderá identificar o eduquês também pela tragédia dos resultados da sua aplicação. Não apenas a escola, mas já também o nosso País, são um laboratório perfeito para fazer essa observação. Mas há mesmo uma observação mais simples que poderá fazer: quando o colocarem perante uma expressão bem sonante, mas que ao meu Amigo pareça não querer dizer nada, ou querer dizer tudo, ou dizer o que já se sabe há milhares de anos, ou que a Filosofia há muito tenha pensado, então, meu caro Amigo, anda aí o dedo do eduquês, isto é do «saber» produzido pela generalidade dos «cientistas» da educação. Especialmente dos que usam totalitariamente as escolas de formação de professores para idiotisar os candidatos à docência, através da escola, o País.Expressões, afinal, como as que julgo ter desmontado no meu artigo (não fui capaz de ser mais claro…)A certa altura do seu comentário o meu amigo escreve: «Um aluno pode fazer facilmente uma licenciatura em Matemática sem nunca fazer um trabalho de grupo nem uma apresentação oral». E daí? Pode mas não deveria. E acha que para perceber isso é necessário uma especialização em «ciências» da educação? Todos os professores que tive desde a escola primária sabiam isso e praticaram isso. Nem sem como comentar, nem o que responder, francamente. Aonde quer o meu Amigo chegar com essa observação?Perdoe-me, mas parece mesmo uma das grandes «descobertas» do eduquês. Descoberta da pólvora (como diziamos no meu tempo de criança). Então é essa a novidade? É mesmo anterior a Sócrates, e sabe-se como os sofistas prometiam mesmo ensinar a ganhar qualquer discussão fosse qual fosse a matéria ou o tema em causa.Claro que se pode e deve aprender tudo o que se queira. Mas na escola – óbvio! – , sobretudo na pública, tem de ensinar e aprender o que – em cada tempo e circunstância -- deve ser considerado essencial e estruturante, para os cidadãos e a sociedade. Pode encontrar isto bem explicado nos grandes autores clássicos. Desde logo os instrumentos para aprender tudo: ler, escrever e contar. Instrumentos de que o eduquês vem assustadoramente a privar crescentemente as nossas crianças.O problema não está na preocupação dos governos e dos responsáveis do ME com as estatísticas. Nem o facilitismo. Isso é do domínio do político facilmente resolúvel. São é epifenómenos. O problema é a ideologia e a pedagogia ao seu serviço. Enfrentada e vencida a besta, tudo o resto se resolverá por acréscimo.Para terminar, depois de tudo o que apressadamente, e ao sabor da tecla, sugeri, deixo a pergunta que é fundamental, revelador, fazermos, como escrevi num artigo recente do Público: em que sociedade quer o eduquês obrigar os Portugueses a viver?Enfim, se eu quisesse terminar com uma picardia inocente -- mas não quero, porque o meu Amigo, não deixando de ter sido o que é e de ter pretendido o que pretendeu, foi amável comigo, impecável no trato, e eu sou muito sensível a isso, porque nunca confundo as ideias com o carácter de quem as defende -- poderia dizer-lhe: se quiser identificar um texto dum eduquês suave, leia o próprio comentário que me dirigiu. Mas espero muito da inteligência e do desejo de liberdade.Por favor, note bem: esta é uma resposta para blogue, que nem revi, sem preocupação formal, sem tempo. Por isso, termino como Padre António Vieira disse numa entrevista com o rei: "peço desculpa por não ter tido tempo… para ser breve."Com amizade, e ao dispor,Guilherme Valente
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DIÁLOGO SOBRE O EDUQUÊS
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