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Os abatopatas

http://dererummundi.blogspot.com/2010/07/os-abatopatas.html

Novo texto de João Boavida, antes publicado no diário As Beiras, sobre essa obsessão autárquica, mas não só, de cortar árvores de todos os tamanhos e tipos, e em todo o lado, cidade, aldeia, campo...À custa de não sermos capazes de fazer algo de válido, criamos frustrações em cadeia e por isso odiamos e tentamos destruir tudo o que nos faz sombra. Desde logo, obviamente, as árvores. Seres indefesos, que não respondem na mesma moeda, silenciosos, humildes ou magníficos na sua nobreza, que nos protegem, nos educam na beleza, nos repousam o olhar, nos refrescam, nos limpam o peito, nos dão quase tudo o que têm. Mas que nos fazem sombra. E por isso nos incomodam. Ou incomodam muitos, os que só gostam da própria sombra. Ou até mais da sua sombra do que de si próprios.Não encontro outra razão para a facilidade, o à vontade, a energia e o desembaraço com que se deitam abaixo, se abatem árvores que não fazem mal a ninguém. E mais, que fazem bem a imensa gente sem pedir quase nada, ou mesmo nada, durante anos e anos, gerações e gerações. Às vezes séculos. E até milénios.É fatal: não somos capazes de fazer obra de alguma envergadura - e às vezes de nenhuma - que não tenhamos que “limpar” antes o terreno levando à frente quantas árvores houver. Com frequência acabamos por não fazer lá nada, mas ao menos deixámos o terreno “limpo”. E a nossa obra fica por aí. Outras vezes tratamos tão mal as árvores, desprezamo-las de tal modo que elas entram em stress, dizem. Fazemos-lhe golpes irremediáveis para amores efémeros, furos definitivos para cartazes de um dia, garrotes assassinos para propaganda política inútil, e muitas outras ofensas por coisas de nada. Fazemos-lhe tantas que elas adoecem. Anos e anos a tratá-las sem cuidado, ou não as tratar, vidas inteiras sem pensar nelas, ou a brutalizá-las. E elas em silêncio. Segundo parece gemem, mas ninguém as ouve. Deviam responder na mesma moeda, mas não são capazes. E às tantas adoecem. E lá vem a ansiada necessidade de as abater. E então ficamos muito satisfeitos porque encontramos motivos suficientes para fazer aquilo que melhor fazemos, que é abater quem está indefeso.Cortam-se em todo o lado, por muitas razões. Todas as razões são boas para o abatopata. Construir qualquer coisa é um bom motivo. Mas nem é preciso. Basta andar a arranjar uma casa, construir um armazém, uma garagem, até uma escola. Fazer uns acrescentos a uma escola respeitável, uns arranjos importantes, é certo, e logo se arranjam boas razões para abater uns tantos cedros. Com muitos anos e bom porte, belos, bem alinhados, embora desprezados. E que tinham dignidade. Por que razão uma obra de remodelação precisa do sangue sacrificial de árvores que não incomodavam as obras nem os que as faziam?

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