“Não existe cómico fora do que é propriamente humano”” (Henri Bergson, 1859-1941).Acabo de ver no “You Tube” um sketch (e porque estamos a falar de Novas Oportunidades, traduzo: paródia em português), com o sugestivo título” Humor:Gandas Oportunidades”.Depois de o ver e de me rir tanto ou mais que nos filmes mexicanos do actor humorístico Cantinflas da minha juventude, em que ele representava várias profissões – mágico, bombeiro, deputado, etc. -, quando deveria ter chorado copiosamente pelo estado inditoso da educação portuguesa, espero que seja cumprida a crítica mordaz de Eça: "O riso é a mais antiga e ainda mais terrível forma de crítica. Passe-se sete vezes uma gargalhada em volta de uma instituição, e a instituição alui-se". Valter Lemos a jogar em casa, uma casa em que foi professor da Escola Superior de Educação local, fez um discurso mirífico em Castelo Branco em que enalteceu as Novas Oportunidades como sendo “o sonho da vida dos diplomados”, sem se referir ao pesadelo para o país de “mais de 400 mil terem recebido diplomas” que atestam, em meia dúzia de meses, uma espécie de milagre de multiplicação de diplomas, de equivalências ao 12.º ano do ensino secundário. E, desta forma, cometeu a injustiça de não reconhecer o facto do respectivo ensino secundário regular ser um dos poucos baluartes da exigência do nosso decadente sistema de ensino oficial em que no próprio ensino superior “há por aí muitos cursos da treta”, na opinião do ex-bastonário da Ordem dos Engenheiros, Fernando Santo (Revista Sábado, 15 a 21 de Abril de 2010).Para que o leitor possa apreciar devidamente, transcrevo um descarnado naco de prosa do discurso de Valter Lemos, actual secretário de Estado do Emprego e da Formação Profissional, em que, talvez, por falta de um Secretariado Nacional de Informação do tempo do Estado Novo, aquando da atribuição de diplomas de Novas Oportunidades albicastrenses, se desfez em elogios ao governo, a si próprio e à obra de ambos. Para esta figura de Estado, quiçá por desconhecimento da máxima latina de que “laus in ore proprio vilescit” (e porque continuamos nas Novas Oportunidades, aqui se traduz: “louvor, em boca própria, perde todo o valor”), as Novas Oportunidades são “uma grande aposta do Governo, cuja prioridade tem sido a qualificação dos portugueses”. Ainda, segundo ele, elas “têm sido um grande instrumento nesse sentido” (“Jornal Reconquista”, Castelo Branco, 22 de Julho de2010).Faço votos de que dos escombros das Novas Oportunidades (aluída pelas gargalhadas das “Gandas Oportunidades”) não ressuscite um novo Valter Lemos que depois de ter passado do Ministério da Educação, onde se desunhou em loas à educação da juventude portuguesa, transitou para o Ministério do Emprego e da Formação Profissional, onde passou a enaltecer com maior vigora, em cerimónias públicas de grande pompa e circunstância que se sucedem pelo país fora, as vantagens das Novas Oportunidades, escamoteando o desemprego que elas possam trazer a competentes operários transformando-os em diplomados com o 12.º ano que perderam “um saber de experiência feito” para adquirirem um saber de ignorância feito atestado por licenciaturas conducentes ao desemprego ou a ganharem num dia o que um operário especializado, que trabalhe por conta própria, ganha em menos de uma hora.Hoje, sinceramente, não me apetece voltar a abordar com seriedade as Novas Oportunidades. Mas para que o meu silêncio não possa ser tido como cúmplice nesta desastrosa situação de dar a todos os portugueses o diploma do 12-º ano ou uma licenciatura tão bem caracterizada neste sketch, o que seria uma ignomiosa deserção da minha parte, limito-me a transcrever um pequeno extracto de um recente post, que publiquei neste blogue, titulado “A Caixa de Pandora das Novas Oportunidades" (09/07/2010), em que estabeleci o confronto entre um ensino exigente e um outro deslocando-se em carris de facilitismo: “Vivemos num país a duas velocidades. Uns viajam em comboios a vapor, com incomodidades pelo caminho e paragens em vários apeadeiros; outros na comodidade do TGV que os transporta, à velocidade de um raio, rumo à obtenção de diplomas dos vários graus de ensino. O TGV é representado pelos exemplos das "Novas Oportunidades" para maiores de 18 anos e do "Acesso ao Ensino Superior para Maiores de 23 anos", com o respectivo e escandaloso facilitismo. Como é óbvio, quem faz o seu percurso escolar regular viaja em comboios do século XIX. Claro que, com isto, não estou contra as “Novas Oportunidades” ou acesso ao ensino superior, dependente da data de nascimento escarrapachada no B.I, de quem, por motivos vários, se viu obrigado a desistir dos respectivos estudos, mas... desde que esta forma de obtenção de diplomas se não torne num bodo aos pobres para quem não quer estudar com os sacrifícios que isso acarreta”.No século XIX, escreveu Ramalho Ortigão, dirigindo-se ao Ministro do Reino, “ o estado em que se encontra em Portugal a instrução secundária leva-me a dirigir a V. Ex.ª o seguinte aviso: Se a instrução secundária não for imediatamente reformada, este ramo do ensino público acabará dentro de poucos anos”. Para além da diminuição da natalidade, hoje, há o risco acrecentado de muitas escolas do ensino secundário oficial da III República, fecharem os portões por falta de alunos que reconhecem que depois de cumprido um 9.º ano em que é que é dificílimo chumbar e facílimo passar, há a possibilidade de se arranjar um emprego de faz-de-conta para ter acesso às Novas Oportunidades. “Et voilá!”, passados escassos meses o diploma do 12.º ano cai do céu aos trambolhões. Outra via será esperar pelos 23 anos para fazer um simulacro de prova de acesso ao ensino superior.Em plena Ditadura de Ignorância, em que se pertende confundir a escolorização de um país com a ilusão de um povo, caminha Portugal, a passos largos, para apresentar estatisticamente a maior percentagem de diplomados com o 12.º ano e de licenciados no espaço da Comunidade Europeia. Ou seja, ao contrário dos genéricos de certos filmes, neste sketch do “You Tube”, qualquer semelhança com a realidade não é pura ficção. É a realidade, ela mesma!
passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
A Democracia das "Gandas Oportunidades"
http://dererummundi.blogspot.com/2010/07/democracia-das-gandas-oportunidades.html

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