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Do "homem-que-conhece" ao "homem-que-faz"

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Com base nas notícias da comunicação social portuguesa, poderíamos afirmar que os Ensinos Básico e Secundário polarizam mais os interesses das pessoas comuns do que o Ensino Superior, ainda que neste, as reformas em curso sejam tão profundas como naqueles.Além disso, são reformas que assentam exactamente nos mesmos pressupostos, indicando o mais central a necessidade de “passagem de um ensino baseado na transmissão de conhecimentos para um ensino baseado no desenvolvimento de competências".Isto esta plasmado no Decreto-Lei n.º 74/2006, de 24 de Março, que formaliza a reorganização do Ensino Superior, mas encontra-se explicitado em todos os documentos que formalizam as reorganizações dos Ensinos Básico e Secundário.No que concerne ao nível de Ensino Superior, explica-se nas alíenas e) e f) do referido documento quais as competências que os alunos devem adquirir na sua frequência universitária ou politécnica: Competências que lhes permitam comunicar informação, ideias, problemas e soluções, tanto a públicos constituídos por especialistas como por não especialistas; competências de aprendizagem que lhes permitam uma aprendizagem ao longo da vida com elevado grau de autonomia.”Centrando-se a noção propangandeada de competência no saber-fazer (ainda que se advirta a todo o momento que ela não pressupõe a desvalorização do saber, que é um "saber em acção ou em uso"), talvez estejamos a passar (ou já passámos), dum modelo de "homem-que-conhece" para um modelo "de homem-que-faz", como refere de António Manuel Baptista. Vale a pena ler o enquadramento destas expressões:"Sabemos que a instituição universitária, de que a actual é herdeira, nas suas linhas fundamentais, tem as suas raízes na Idade Média, no século XII. Destacamos a sua importância capital por ter contribuído principalmente para fazer a ligação do mundo clássico greco-romano, através dos Árabes, ao mundo ocidental e decisivamente para o surgimento de uma cultura científica (…).A ideia de universidade moderna que chega até aos nossos dias foi implantada por Alexander von Humboldt na Alemanha no século XIX (…). Fundamentalmente, via-se a universidade como uma instituição de ensino superior onde se ia criando o conhecimento novo que iria sendo transmitido aos alunos, formando-se uma comunidade de escolares numa atmosfera propícia para a obtenção e propagação desse conhecimento (…).A ênfase fundamental era colocada mais no homem-que-conhecia do que no homem-que-fazia.Os problemas da competência do professor e das capacidades dos estudantes eram, de certa maneira, simplificados, pois, com o desenvolvimento científico, foi-se estruturando, regradamente, uma comunidade internacional com hierarquias próprias. Polany chamar-lhe-ia, mais tarde, a república da ciência na sua dimensão internacional. Essa república haveria de estabelecer os seus próprios padrões de excelência, em que se valorava primariamente a criatividade científica e os modos de a apreciar e estimular. Assim se desenvolveram e criaram instituições variadas, com as revistas especializadas, com o seu corpo editorial e árbitros, conferências, seminários, etc., envolvendo toda a actividade com uma vigilância bastante eficaz.O conhecimento era considerado o produto por excelência das instituições universitárias (…). O espírito universitário radica fundamentalmente neste respeito pelo conhecimento e sua fruição como valor próprio absoluto (…). Assim, a universidade responde a uma necessidade real das comunidades e surge como meio de responder a esse anseio cultural, para lá da formação de profissionais. A universidade, em princípio, está onde estiver este amor ao conhecimento e à sua aquisição e transmissão (…). Considerava-se que os jovens formados numa atmosfera em que se valorizasse o conhecimento desta forma, com as suas exigências intelectuais, poderiam depois, nas suas profissões particulares, desempenhar cabalmente as diversas funções que a sociedade lhes exigisse para a realização dos seus fins, fossem estes quais fossem.Estamos, efectivamente, a tentar identificar o cerne vital da instituição que, naturalmente, seria sempre um organismo muito mais complexo na satisfação de outros objectivos da sociedade onde estava inserida e que, pelo seu apoio, a tornava possível. Mas digamos que tudo o que afectava esse núcleo essencial da formação e transmissão do conhecimento novo era resistido como uma ameaça à integridade da instituição (…)."Referência completa: Baptista, A. M. (1998). Ciência, universidades e universidades portuguesas. A. M. Baptista. A ciência no grande teatro do mundo. Lisboa: Gradiva, Capítulo 6, páginas 171 e seguinte.

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