(...)Neste campo, entre as conclusões evidenciadas pela investigação, salientamos as que demonstram que, quanto mais os alunos percepcionam a ausência de favoritismo e a neutralidade por parte dos professores, mais confiam neles e lhes atribuem um estatuto de autoridade (Gouveia‑Pereira, 2008). Amado (2001, p. 402) chama a atenção para o fenómeno da reciprocidade de sentimentos e de comportamentos que “se traduz numa relação directa entre a ‘simpatia’ do professor e a adesão afectiva e comportamental do aluno”, numa espécie de “causalidade circular entre a simpatia, o respeito mútuo e os comportamentos ajustados”. São também clássicos os estudos que revelam diferenças acentuadas na interpretação e valorização das acções docentes em função da idade, do nível de escolaridade e do sexo dos alunos (Gilly et al., 1975; Leite & Tassoni, 2002). A este propósito Amado (2001, p. 404) verificou que, na fase da adolescência, o aluno, quando o professor ultrapassa certos limites nas manifestações verbais de carinho e afecto para com ele e a turma, interpreta essas manifestações como uma estratégia de sedução, utilizada para “exercer um controlo que aos seus olhos não é legítimo, constituindo uma espécie de violência (ainda que simbólica) inaceitável”. Tudo aponta para o facto de que, nestas idades, “a simpatia do professor não se demonstra por uma dimensão afectiva, mas por uma competência de ordem técnica, a capacidade de fazer participar o aluno na aula” (Amado, 2001, p. 404). A dimensão afectiva na gestão do currículo está associada a categorias do comportamento verbal e não verbal do professor; falamos de posturas não verbais, tais como a proximidade (deslocações do professor para junto dos alunos numa atitude de ajuda) e a receptividade (traduzida no esforço por olhar e ouvir o aluno). Já as categorias da comunicação verbal do professor, positivamente avaliadas, são múltiplas, salientando‑se verbalizações de incentivo, ajuda, feedback e elogio. Trata‑se de comportamentos docentes que, segundo uma síntese apoiada em diversos autores (Amado, 2001; Freire, 1990, 2001; Gonçalves & Alarcão, 2004; Leite & Tagliaferro, 2005; Leite & Tassoni, 2002): · encorajam os alunos no desempenho das tarefas, manifestando expectativas positivas acerca das suas possibilidades;· ajudam e colaboram na compreensão de conteúdos (repetindo, fazendo esforço por serem claros), na resolução de problemas, no desempenho de tarefa;· promovem uma avaliação humanizada (e, por isso, “justa”), respeitando as capacidades e características do aluno, levando‑o a participar activamente no processo, a reflectir e a aprender a partir dos seus próprios erros;· implicam os alunos nas decisões e escolhas dentro da aula, quer no que respeita à estrutura das actividades curriculares (alguns conteúdos em opção, métodos de ensino e aprendizagem, processos e momentos de avaliação, etc.), quer no que respeita à estrutura das relações sociais (definição de regras, debate sobre o seu incumprimento, decisões quanto à penalização das infracções, etc.);· não marginalizam, não estigmatizam, não ridicularizam nem excluem ninguém da ajuda que prestam, chegando ao ponto de a individualizar quando necessário e possível. Num estudo sobre uma experiência de gestão personalizada do currículo, em que se observou grande parte dos comportamentos docentes acima especificados, Gonçalves e Alarcão (2004, p. 12) concluem: “definir critérios de escolha a nível individual é possibilitar uma ligação afectiva ao que se escolhe, logo, chamar o aluno a decidir é chamá‑lo a reflectir, a assumir responsabilidade pela sua decisão, ligando‑se afectivamente a ela”. Acresce a todos estes aspecto da ordem do “saber fazer” e do profissionalismo, a esfera das características pessoais do professor, em que sobressaem a disponibilidade (capacidade de ouvir e entender sem deixar de ser crítico), a aproximação amistosa e respeitosa (por exemplo, cumprimentar e falar com o aluno em contextos exteriores à escola e à aula) e, muito especialmente, a capacidade de criar um clima de bem‑‑estar e de humor (onde o aluno se possa rir e, ao mesmo tempo, sinta incentivo para trabalhar). A exigência de que o professor seja capaz de temperar a severidade com humor é reconhecida desde há muito (Dubberley, 1995). Segundo Amado (2001, p. 345) os alunos, conhecendo bem os seus professores, elaboram uma espécie de tipologia que lhes permite regular os próprios comportamentos face ao estilo que naqueles predomina: “há, assim, a este respeito pelo menos três tipos de professores: aqueles com quem se pode brincar e abusar e não dizem nada; aqueles com quem se brinca mas não se pode abusar; aqueles com quem nunca se pode brincar”.Amado e outrosFonte