Continuo aqui a minha série de crónicas de viagem, do meu livro "Curiosidade Apaixonada" (Gradiva). Depois de Bruxelas e Frankfurt, esta é sobre Londres, tendo eu efectuado algumas ligeiras actualizações. Na imagem o Museum of Natural History.Os voos para Londres são mais económicos do que os voos para a maior parte dos outros destinos europeus, incluindo alguns mais próximos como por exemplo Madrid. É por isso sempre tentador ir a Londres. Convém procurar a melhor tarifa porque dois passageiros que vão sentados lado a lado no mesmo avião podem ter pago preços muito diferentes pela mesmíssima viagem (as companhias aéreas têm razões que a razão desconhece!).Londres é tão grande que o seu conhecimento exige uma estada prolongada. Se o visitante só puder estar na capital da Grã-Bretanha por escassos dois ou três dias, em vez de andar ao desatino por tudo quanto é sítio, o melhor é apontar a uma zona precisa e tentar conhecê-la bem. Mesmo assim há zonas para as quais não chegam dois ou três dias...Qual é a melhor zona de Londres? A resposta variará conforme os interesses do visitante, mas, se me fizerem a pergunta, responderei que é, sem dúvida, South Kensington. Não é propriamente o centro de Londres, onde há na minha opinião gente demais, mas não está longe do centro. Usando o metro e partindo da estação de South Kensington são quatro estações até Westminster, pelas linhas Circle ou District, e são também quatro estações até Picadilly Circus, pela Picadilly Line. O “tube” (nome por que que é conhecido o mais antigo metro do mundo, já que remonta a 1863) é bastante profundo e estreito, mas funciona com uma eficácia e regularidade espantosas.South Kensington começa por ser uma zona elegante e, por isso, cara para se viver. Para se ter uma ideia da qualidade do bairro bastará ao turista sair das profundezas da Terra em South Kensington e dirigir-se à Old Brompton Road. Encontra logo à entrada uma loja que vende Lamborghinis. E encontra ao longo da rua todo um conjunto de serviços de qualidade, que vão desde restaurantes com jazz ao vivo até mercearias abertas “around the clock” passando por bancos e livrarias. South Kensigton tem, como Myfair e outros bairros londrinos, bonitas residências do século XIX. É uma zona de embaixadas e consulados, facilmente reconhecíveis pela placa e bandeira à porta (algumas embaixadas junto ao Palácio de Kensington são belíssimos palacetes). South Kensington tem também o Hyde Park, que se junta harmoniosamente aos jardins do palácio de Kensington. Antiga coutada, o parque é hoje uma enorme zona de lazer, onde o visitante se pode deitar em espreguiçadeiras alugadas, alimentar os patos e outras aves que chapinam no grande pântano, andar de barco na Serpentine (lago artificial onde se afogou a mulher do poeta Percy Shelley, quando os suicídios românticos estavam na moda), ver uma exposição de arte moderna na galeria Serpentine e apreciar pavilhão do arquitectura moderna. Não longe do Hyde Park, na Brompton Road, encontra-se o Harrods, o mais espectacular armazém do mundo, onde vale a pena uma visita aos “Food Halls” embora os preços refreiem um pouco o apetite das compras. Como o palácio de Kensigton era ocupado pela princesa Diana e o Harrods era da família do seu último namorado, South Kensigton está portanto associado de perto ao mais famoso drama, para não dizer melodrama, britânico dos últimos tempos.Mas a atracção de South Kensington está muito longe de se resumir a esse drama recente. De facto, o principal interesse de South Kensigton é cultural e bem antigo. É nessa zona que se situa o Royal Albert Hall, onde no Verão se realizam os famosos concertos Promenade. O programa pode ser comprado em qualquer quiosque e os bilhetes são relativamente fáceis de obter, excepto o do concerto final, em que a multidão canta em coro patriótico com a orquestra temas de Elgar e de outros compositores britânicos. Junto ao Royal Albert Hall, do lado do Hyde Park e no local onde em 1851 se realizou a Grande Exposição de Londres, ergue-se um grandioso monumento edificado pela rainha Vitória em memória do seu marido Albert, falecido de febre tifóide com apenas 41 anos, em 1861 (o monarca não chegou, portanto, andar de metro!). Vale a pena acrescentar, para benefício de quem não tem as datas históricas presentes, que a rainha Vitória, cujo pudor obrigava a tapar com longas toalhas as pernas das mesas, sobreviveu 40 anos ao seu consorte: ela reinou de 1837 a 1901 à frente de um vasto império, dominando o século XIX. South Kensington é também o sítio do Victoria and Albert Museum, dedicado às artes aplicadas e que é um excelente repositório da época do casal real. Tudo nessa zona de Londres nos faz lembrar a próspera época vitoriana!Quando se fala de cultura tem também de se falar de ciência. South Kensington é um centro de cultura e é também um centro de ciência. Situam-se lá, bem ao lado do Museu Victoria and Albert, dois dos maiores e melhores museus de ciência do mundo, o Science Museum e o Museum of Natural History. Construídos na segunda metade do século XIX, são produtos da época vitoriana. Os dois são acessíveis a partir da estação de South Kensington por um longo túnel, cujo chão está gasto de tanto ser calcorreado pelos adultos e principalmente pelas crianças e jovens que demandam os museus. O Museu de História Natural consegue ser maior do que o seu vizinho Museu de Ciência, já de si grande. De resto, o seu edifício enche mais o olho: o impressionante estilo neo-gótico faz o museu parecer um mosteiro. É obrigatório referir o arquitecto Alfred Waterhouse, autor desse “mosteiro da história natural” cuja fachada está ornamentada com motivos naturais em vez de anjos e santos. O “hall” do Museu tem uma dimensão que torna anão o enorme dinossauro que ocupa o centro. Por falar em dinossauros, a ala dos dinossauros é uma das principais atracções do Museu. Pode ser vista à entrada virando logo à esquerda. Como nos outros museus públicos britânicos, a visita ao Museu não se paga (há mum contributo facultativo), excepto as exposições especiais. O Museu de História Natural tem-se modernizado incluindo hoje o Centro Darwin, que homenageia o maior naturalista de todos os tempos, contemporâneo da rainha Vitória, cuja estátua domina o "hall".Mas, como se faz tarde, ala para o vizinho Museu de Ciência... Se por fora o edifício não é nada de especial, a grande sala de base impressiona o visitante pelo número e tamanho das máquinas, que documentam a origem da riqueza da época vitoriana: a Revolução Industrial, que começou ainda no século XVIII com as máquinas a vapor mas ganhou alento no século XIX com as máquinas eléctricas. Tal como o Museu de História Natural, o Museu de Ciência demora algum tempo a ser visto: entre os seus inúmeros tesouros sobressai a colecção do rei George de instrumentos científicos, que é semelhante mas ainda melhor que a colecção do Gabinete de Física da Universidade de Coimbra. No ano 2000, foi inaugurada um novo espaço que permitiu acrescentar cerca de 30% ao Museu. Esse novo espaço, que inclui um IMAX (cinema de grande ecrã), encontra-se no lado oposto à entrada principal, depois de atravessar quer a sala das grandes máquinas quer uma galeria dedicada à exploração espacial. No rés do chão há um café-restaurante com luzes que dão um ar de ficção científica. Na cave há um zona de brincadeiras científicas para os mais novos, género “Ciência Viva”, onde eles podem mexer à vontade. Nos primeiro e segundo andares há exposições bem montadas sobre genética e informática. No último andar há jogos electrónicos sobre a vida no futuro, para serem jogados colectivamente sobre mesas futuristicamente inclinadas. Os miúdos não querem sair de lá...Muito mais haveria a dizer sobre South Kensington... “Last but not least”, tem de se referir que mesmo atrás do Museu de Ciência fica o Imperial College, uma dos melhores escolas de ciência do mundo. Aí trabalha o astrofísico português João Magueijo, que era o mais famoso português em Londres antes de lá ter chegado José Mourinho...
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SOUTH KENSINGTON EM LONDRES
http://dererummundi.blogspot.com/2009/11/south-kensington-em-londres.html
November 28 2009, 4:38pm | Comments »
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Dos fósforos, do hálito, da mudança
http://terrear.blogspot.com/2009/11/dos-fosforos-do-halito-da-mudanca.html
- Como vê, todos temos no nosso interior os elementos necessanos para produzir fósforo. Mais ainda, deixe-me dizer-lhe uma coisa que não confiei ainda a ninguém. A minha avó tinha uma teoria muito interessante, dizia que embora todos nasçamos com uma caixa de fósforos no nosso interior, não os podemos acender sozinhos, precisamos, como na experiência, de oxigénio e da ajuda de uma vela. Só que neste caso o oxigénio tem de vir, por exemplo, do hálito da pessoa amada; a vela pode ser qualquer tipo de alimento, música, caricia, palavra ou som que faça disparar o detonador e assim acender um dos fósforos. Por momentos sentir-nos-emos deslumbrados por uma intensa emoção. Dar-se-á no nosso interior um agradável calor que irá desaparecendo pouco a pouco conforme passa o tempo, até vir uma nova explosão que o reavive. Cada pessoa tem de descobrir quais são os seus detonadores para poder viver, pois a combustão que se dá quando um deles se acende é que alimenta a alma de energia. Por outras palavras, esta combustão é o seu alimento. Se uma pessoa não descobre a tempo quais são os seus próprios detonadores, a caixa de fósforos fica húmida e já nunca poderemos acender um único fósforo.Se isso chegar a acontecer a alma foge do nosso corpo, caminha errante pelas trevas mais profundas procurando em vão encontrar alimento sozinha, não sabendo que só o corpo que deixou inerme, cheio de frio, é o único que poderia dar-lho.Como eram certas aquelas palavras! Se havia alguém que soubesse isso era ela. Infelizmente, tinha de reconhecer que os seus fósforos estavam cheios de mofo e humidade. Ninguém podia voltar a acender um só que fosse.O mais lamentável era que ela sabia muito bem quais eram os seus detonadores, mas cada vez que tinha conseguido acender um fósforo haviam-no apagado inexoravelmente.John, como que lendo o seu pensamento, comentou: - Por isso é preciso mantermo-nos afastados de pessoas que tenham um hálito gélido. Bastaria a sua presença para poder apagar o fogo mais intenso, com os resultados que já conhecemos. Quanto mais à distância nos pusermos destas pessoas, tanto melhor nos protegeremos do seu sopro.Pegando numa mão de Tita entre as suas, acrescentou docilmente:- Há muitas maneiras de pôr uma caixa de fósforos húmida a secar, mas pode ter a certeza de que tem solução.Tita deixou que algumas lágrimas deslizassem pelo seu rosto. Com doçura John secou-lhas com o seu lenço.- É claro que também é preciso ter o cuidado de ir acendendo os fósforos um a um. Porque se por uma emoção muito forte se acendem todos de uma vez produz-se um brilho tão forte que ilumina para além do que podemos ver normalmente e então aparece aos nossos olhos um túnel esplendoroso que nos mostra o caminho que esquecemos no momento de nascer e que nos chama a reencontrar a nossa origem divina perdida. A alma deseja integrar-se de novo no sítio de onde vem, deixando o corpo inerte... Desde que a minha avó morreu que procuro demonstrar cientificamente esta teoria. Talvez um dia o consiga. O que acha?O doutor Brown manteve-se em silêncio para dar tempo a Tita comentar qualquer coisa se assim o desejasse. Mas o seu silêncio era como se fosse de pedra. Laura Esquível (1989) Como Água Para Chocolate, Porto:ASA (109-110)
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November 28 2009, 4:16pm | Comments »
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A Metáfora da caixa de fósforos
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Era uma vez uma caixa. Uma caixa de fósforos.E a caixa de fósforos estava dentro de nós.E os fósforos erama emoção,o saber,a razão,a experiência,a compaixão,a dádiva,o compromisso.Todos tínhamos, em graus diversos, estas sementes de vida.Era uma vez um detonador que acendia um fósforo, às vezes todos os fósforos.Uma palavra. Um contexto.Um olhar. Uma consciência.Um estímulo.Uma liderança.Um reconhecimento.Uma política mobilizadora.E havia então o fogo, o lume que aquecia uma relação.Um entusiasmo.Era uma vez o oxigénio que mantinha a chama acesa.Contra o vento,contra a desautorização,contra a rotina,contra a inércia,contra o medo,contra a indiferença,contra a humidade que tornava os fósforos inúteis.Que palavras,que contextos,que consciências,que estímulos,que lideranças,que reconhecimentos,que políticas farão acender e durar a chama de uma acção profissional dedicada e justa?Eis a questão.(a partir de Laura Esquível)
November 28 2009, 4:08pm | Comments »
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The Fun Theory
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A ideia é bem simples. Será que conseguimos mudar o comportamento das pessoas para o melhor fazendo com que as coisas sejam (mais) divertidas?Parece que sim, que tornar as coisas divertidas faz com que as pessoas mudem o comportamento. Se com isso aprenderem, isto é, se a mudança de comportamento não for circunstancial, parece ser uma boa solução. Mudar os comportamentos para com a preservação do ambiente, para com a saúde, alimentação, exercício físico, ensino e aprendizagem, são algumas das áreas que teriam a ganhar com esta "Fun Theory".Para ver mais visitem: http://www.thefuntheory.com
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November 28 2009, 4:20am | Comments »
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FAITH: DO WE NEED TO HAVE ANOTHER TALK?
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Extracto da habitual coluna "What's New" de fim de semana do físico norte-americano Robert Park:"On Wednesday in the NY Times an op-ed by Nicholas Kristof remarked on a new crop of books dealing with the war between science and religion. He describes this latest crop as "less combative and more thoughtful" than those by Richard Dawkins, Christopher Hitchens, Sam Harris and the like. He hopes this "marks an armistice in the religious wars." I hope not. Kristof is particularly taken by Robert Wright's "The Evolution of God." I like it too. Wright is smart, and a really good writer, but he needs to be more like Dawkins, Hichens and Harris. In his latest book he explores how religion has gotten "better" over time. People are no longer burned at the stake in the name of religion. No, now they are now blown to pieces with improvised explosive devices or flown into the side of public buildings. Different religion -- same God."
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November 28 2009, 1:46am | Comments »
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Elogio Histórico da Razão
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Texto de Voltaire de 1775 (na imagem a gravura de Goya sobre a razão):Fez Erasmo, no século XVI, o elogio da Loucura. Vós me ordenais que vos faça o elogio da Razão. Essa Razão, com efeito, só costuma ser festejada duzentos ano após sua inimiga, e às vezes muito mais tarde; e existem nações onde ela ainda não foi vista.Era tão desconhecida entre nós, no tempo do. druida, que nem sequer tinha nome em nossa língua. César não a levou nem à Suíça, nem a Autan, nem a Paris, que não passava então de uma aldeola de pescadores; e ele próprio quase a não conhecia.Possuía tantas e tamanhas qualidades que a Razão não pode encontrar lugar em meio delas. Esse magnânimo insensato saiu de nosso país devastado para ir devastar o seu e para deixar-se mimosear com vinte e três punhaladas por vinte e três outros ilustres furiosos que estavam longe de emparelhar com ele.O sicambro Clodvich, ou Clóvis, cerca de quinhentos anos depois, veio exterminar parte da nossa nação e subjugar a outra. Não se ouviu falar em razão, nem no seu exército nem nas nossas infelizes aldeias, a não ser na razão do mais forte.Apodrecemos por muito tempo nessa horrível e aviltante barbárie, da qual as Cruzadas não nos tiraram. Foi essa, ao mesmo tempo a mais universal, a mais atroz, a mais ridícula e desgraçada das loucuras. A essas longínquas cruzadas, sucedeu a abominável loucura da guerra civil e sagrada que exterminou tanta gente da língua de oc e da língua de oil. A Razão não tinha como achar-se ali. Em Roma reinava então a Política, que tinha como ministras suas duas irmãs, a Velhacaria e a Avareza. Via-se a Ignorância, o Fanatismo, a Fúria, percorrerem sob suas ordens a Europa toda; a Pobreza lhes seguia o rastro; a Razão ocultava-se num poço, como a Verdade sua filha. Ninguém sabia onde ficava esse poço, e, se o farejassem, ali teriam descido para degolar mãe e filha.Depois que os turcos tomaram Constantinopla, redobrando os espantosos males da Europa, dois ou três gregos, ao fugir, tombaram nesse poço, ou antes, nessa caverna, semimortos de fadiga, de fome e de medo.A Razão recebeu-os com humanidade, deu-lhes de comer sem distinção de carnes (coisa que jamais haviam conhecido em Constantinopla). Receberam dela algumas instruções, em pequeno número: pois a Razão não é prolixa. Obrigou-os a jurar que não revelariam o local do seu retiro. Partiram, e chegaram, depois de muito andar, à corte de Carlos V e Francisco I.Receberam-nos ali como a prestidigitadores que viessem fazer seus passes de mágica para distrair a ociosidade dos cortesãos e das damas, no intervalo de seus encontros galantes. Os ministros dignaram-se olhá-los nos momentos de folga que lhes pudessem permitir a lufa-lufa dos negócios. Chegaram até a ser acolhidos pelo imperador e pelo rei de França, que lhes lançaram um olhar de passagem, quando iam ter com suas amantes. Mas eles colheram melhor fruto nas pequenas cidades, onde encontraram alguns burgueses que ainda tinham, não se sabia como, algum vislumbre de senso comum.Esses flébeis clarões se extinguiram em toda a Europa, entre as guerras civis que a assolaram. Duas ou três faíscas de razão não podiam aclarar o mundo no meio das tochas ardentes e das fogueiras que o fanatismo acendeu durante tantos anos. A Razão e sua filha ocultaram-se mais do que nunca.Os discípulos de seus primeiros apóstolos suicidaram-se, com excepção de alguns que foram bastante desavisados para irem apregoar a Razão desarrazoadamente, e fora de tempo: isso lhes custou a vida, como a Sócrates; mas ninguém prestou atenção à coisa. Nada mais desagradável do que ser enforcado obscuramente. Por tanto tempo se havia a gente ocupado com noites de S. Bartolomeu, massacres da Holanda, cadafalsos da Hungria, e assassínios de reis, que não havia nem tempo, nem suficiente liberdade de espírito para pensar nos crimes miúdos e nas calamidades secretas que inundavam o mundo, de um extremo a outro.A Razão, informada do que ocorria por alguns exilados que se haviam refugiado no seu retiro, sentiu-se tomada de compaixão, embora não passe por ser muito terna. Sua filha que é mais ousada do que ela, animou-a a que fosse ver o mundo e tratasse de curá-lo. Apareceram as duas, falaram mas encontraram tantos malvados interessados em contradizê-las, tantos imbecis a soldo desses malvados, tantos indiferentes apenas preocupados consigo mesmos e com o momento actual e que não se importavam nem com elas nem com seus inimigos, que resolveram ambas voltar muito sabiamente para o seu asilo.Todavia, algumas sementes dos frutos que elas carregam sempre consigo, e que haviam espalhado, germinaram na terra; e até sem apodrecer.Enfim, há algum tempo lhes deu vontade de ir em peregrinação a Roma, disfarçadas e anónimas, por medo da Inquisição. Logo de chegada, dirigiram-se ao cozinheiro do papa Ganganelli – Clemente XIV. Sabiam que era o menos ocupado cozinheiro de Roma. Pode-se até dizer que era, depois de vossos confessores, o homem mais folgado da sua profissão.Esse homem, depois de ter servido às duas peregrinas uma refeição quase tão frugal quanto a do papa, levou-as à presença de Sua Santidade, a quem encontraram lendo os Pensamentos de Marco Aurélio. O papa reconheceu os disfarces e beijou-as cordialmente, apesar da etiqueta. "— Minhas Senhoras, se eu pudesse imaginar que estavam neste mundo, ter-lhes-ia feito a primeira visita.”Após os cumprimentos, trataram de negócios. Logo no dia seguinte, Ganganelli abulia a bula In coena Domini, um dos maiores monumentos da loucura humana, que por tanto tempo ultrajara a todos os potentados. No outro dia, tomou a resolução de destruir a companhia de Garasse, de Guiguard, de Garnet, de Busenbaum, de Malagrida, de Paulian, de Patouillet, de Nonnotte; e a Europa bateu palmas. No terceiro dia, diminuiu impostos de que o povo se queixava. Animou a agricultura e todas as artes; fez-se estimado de todos aqueles que passavam por inimigos de seu posto. Disseram então, em Roma, que não havia mais que uma nação e uma lei no mundo.As duas peregrinas, atônitas e satisfeitas, despediram-se do papa, que lhes fez presente, não de agnus e de relíquias, mas de uma boa carruagem para continuarem a viajar. A Razão e a Verdade não tinham até então o hábito de andar a gosto.Visitaram toda a Itália, e surpreenderam-se de encontrar, em vez do maquiavelismo, uma verdadeira emulação entre os príncipes e as repúblicas, desde Parma a Turim, para ver quem tornaria seus súbditos mais honrados, mais ricos e mais felizes.Minha filha – dizia a Razão à Verdade, – creio que o vosso reinado bem poderia começar, após tão longa prisão. Alguns dos profetas que nos foram visitar no poço devem ter sido mesmo muito poderosos em palavras e obras, para assim mudarem a face da terra. Bem vês que tudo vem tarde. Era preciso passar pelas trevas da ignorância e da mentira antes de entrar em teu palácio de luz, de que foste escorraçada comigo durante tantos séculos. Acontecerá connosco O que aconteceu com a Natureza; esteve ela coberta de um véu, e toda desfigurada, durante inumeráveis séculos. Afinal chegou um Galileu, um Copérnico, um Newton, que a mostraram quase nua, fazendo os homens se enamorarem dela.Assim conversando, chegaram a Veneza. O que consideraram mais atentamente foi um procurador de S. Marcos que segurava um grande par de tesouras, diante de uma mesa toda coberta de jarras, de bicos e de plumas negras.Ah! – exclamou a Razão, – Deus me perdoe, lustrissimo Signor, mas creio que essa é uma das tesouras que levava para o meu poço, quando ali me refugiei com minha filha! Como a obteve Vossa Excelência, e que faz com ela?— Lustrissima Signora – respondeu o procurador, – bem pode ser que a tesoura tenha pertencido outrora a Vossa Excelência; mas foi um chamado Fra Paolo que no-la trouxe há muito, e dela nos servimos para cortar as garras da Inquisição, que vedes espalhadas sobre esta mesa.Essas plumas negras pertenciam a harpias que vinham comer o alimento da república; nós lhes aparamos todos os dias as unhas e a ponta do bico. Se não fora essa precaução, teriam acabado por devorar tudo; nada teria sobrado para os grandes, nem para os pregadi, nem para os cidadãos.Se passardes pela França, talvez encontreis em Paris vosso outro par de tesouras, em poder de um ministro espanhol, que as empregava da mesma forma que nós em seu país, e que será um dia abençoado pelo género humano.Depois de terem assistido à Ópera veneziana, partiram as duas viajantes para a Alemanha. Viram com satisfação esse país, que no tempo de Carlos Magno não passava de uma floresta imensa entrecortada de pântanos, coberto agora de cidades florescentes e tranquilas; esse país, povoado de soberanos outrora bárbaros e pobres, e agora todos polidos e magníficos; esse país, cujo sacerdócio, nos tempos antigos, só era constituído por feiticeiras, que então imolavam criaturas humanas sobre pedras grosseiramente talhadas; esse país que fora depois inundado por seu próprio sangue, para saber ao certo se a coisa era in, cum, sub, ou não; esse país que enfim acolhia ao seio três religiões inimigas, espantadas de viver pacificamente juntas.“Louvado seja Deus! – disse a Razão. – Essa gente veio afinal a mim, à força de demência.”Conduziram-nas à presença de uma imperatriz muito mais que sensata, pois era generosa. Tão contentes ficaram com ela as peregrinas, que não levaram em conta alguns costumes que as chocaram; mas ambas se enamoraram do imperador seu filho.Redobrou-lhes o espanto ao chegarem à Suécia. “Como!” – diziam, – “uma revolução tão difícil e no entanto tão rápida! tão perigosa e no entanto tão pacifica! E, desde esse grande dia, nem um só dia perdido para a prática do bem, e tudo isso na idade que é tão raramente a da razão! Bem fizemos em sair de nosso esconderijo quando esse grande acontecimento enchia de admiração a Europa inteira!”Dali, atravessaram às pressas a Polónia. “Ah! minha mãe, que contraste! – exclamou a Verdade. – Dá-me até vontade de voltar para o poço. Eis no que dá ter esmagado sempre a mais útil porção do gênero humano e tratado aos lavradores – pior do que eles tratam aos animais que os servem! Esse caos de anarquia só podia redundar em ruína: já o haviam predito claramente. Lamento um monarca virtuoso, sábio e humano; e ouso esperar que ele seja feliz, pois os outros reis começam a sê-lo, e as vossas luzes se comunicam gradualmente.“Vamos ver – continuou ela – uma transformação mais favorável e surpreendente. Vamos a essa imensa região hiperbórea, tão bárbara há oitenta anos e hoje tão esclarecida e invencível. Vamos contemplar aquela que cumpriu o milagre de uma nova criação...” Lá acorreram, e confessaram que não lhes haviam exagerado.Não cessavam de admirar o quanto mudara o mundo em alguns anos. Concluíram que talvez um dia o Chile e as Terras Centrais fossem o centro da civilização e do bom gosto e que se teria de ir ao pólo antárctico para aprender a viver.Chegadas que foram à Inglaterra, disse a Verdade à sua mãe:— Parece-me que a felicidade desta nação não é constituída como a das outras; foi mais louca, mais fanática, mais cruel e mais infeliz do que qualquer uma das que eu conheço; e eis que instituiu um governo único, no qual conservou tudo o que a monarquia tem de útil e tudo o que uma república tem de necessário. É superior na guerra, nas leis, nas artes, no comércio. Apenas a vejo embaraçada com a América setentrional, que conquistou num extremo do universo, e com as mais belas províncias da Índia, subjugadas no outro extremo. Como carregará ela esses dois fardos da sua felicidade?— O peso é considerável – disse a Razão, – mas, desde que ela me escute um pouco, há de encontrar alavancas que o tornarão mais leve.Afinal a Razão e a Verdade passaram pela França, onde já haviam feito algumas aparições, tendo sido dali escorraçadas. “Não vos lembrais – dizia a Verdade à sua mãe – do grande desejo que tivemos de nos estabelecer entre os franceses nos belos dias de Luís XIV? Mas as impertinentes querelas dos jesuítas e dos jansenistas nos obrigaram a fugir em seguida. Não mais nos chegam agora os apelos contínuos do povo. Ouço as aclamações de vinte milhões de homens que abençoam os Céus. Este acontecimento, dizem uns, é tanto mais jubiloso porquanto não nos custa nada essa alegria. Bradam outros: O luxo não é mais que vaidade. Os empregos acumulados, as despesas supérfluas, os lucros extraordinários, tudo isso vai ser cortado. E têm razão. Todo e qualquer novo imposto será abolido. E nisso não têm razão: pois cumpre que cada particular pague alguma coisa em proveito da felicidade geral. “As leis vão ser uniformes. Nada mais desejável, mas nada tão difícil. Vão ser distribuídos, aos indigentes que trabalham, e sobretudo aos pobres operários, os bens imensos de certos ociosos que fizeram voto de pobreza. Essa gente de mão-morta não mais terá, por sua vez, escravos de mão-morta. Não mais se verão esbirros de monges escorraçar da casa paterna órfãos reduzidos à mendicidade, para enriquecerem com os seus despojos a um convento no gozo de direitos senhoriais, que são os direitos dos antigos conquistadores. Não mais se verão famílias inteiras pedindo inutilmente esmola à porta do convento que as despoja. Praza aos Céus. Nada é mais digno de um rei. O rei da Sardenha acabou com esse abominável abuso, Queira Deus que esse abuso seja exterminado em França.“Não ouvis, minha mãe, todas essas vozes que dizem: Os casamentos de cem mil famílias úteis ao Estado não mais serão considerados concubinagens; e os filhos não mais serão declarados bastardos pela lei? A natureza, a justiça e vós, minha mãe, tudo reclama para esse assunto um sábio regulamento, que seja compatível com o repouso do Estado e com os direitos de todos os homens.“Tornar-se-á a profissão de soldado tão digna que ninguém mais será tentado a desertar. A coisa é possível mas delicada".“As pequenas faltas não serão punidas como grandes crimes, pois que em tudo é preciso proporção. Uma lei bárbara, obscuramente enunciada, mal interpretada não mais fará perecer nas barras de ferro e nas chamas a jovens indiscretos e imprudentes, como se tivessem assassinado os próprios pais."Deveria ser este o primeiro axioma da justiça penal.“Não mais serão confiscados os bens de um pai de família, pois os filhos não devem morrer de fome por causa das faltas dos pais, e o rei não tem nenhuma necessidade desse miserável confisco. Maravilhoso! Isso é digno da magnanimidade do soberano.“A tortura, inventada outrora pelos ladrões de estrada para forçar as vítimas a revelar seu tesouro, e empregada hoje em pequeno número de nações, para salvar o culpado robusto e perder o inocente fraco de corpo e de espírito, só será utilizada nos crimes de lesa-sociedade, na pessoa do chefe, e somente para conseguir a revelação dos cúmplices. Mas tais crimes jamais serão cometidos. Nada melhor. Eis os votos que ouço por toda parte, e escreverei todas essas grandes mudanças nos meus anais, eu que sou a Verdade."“Ouço ainda proferir em torno de mim, em todos os tribunais, estas palavras notáveis: Não citaremos jamais os dois poderes, pois só pode existir um: o do, rei, ou da lei, em uma monarquia; o da nação, em uma república. O poder divino é de natureza tão diferente, tão superior, que não deve ficar comprometido por uma mescla profana com as leis humanas. O infinito não se pode juntar ao finito. Gregório VII foi quem primeiro ousou chamar o infinito em seu auxílio, nas suas guerras, até então inauditas, contra Henrique IV, imperador demasiado finito; quero dizer: limitado. Por muito tempo essas guerras ensangüentaram a Europa; mas, afinal separaram essas entidades veneráveis, que nada têm em comum: e é o único meio de garantir a paz."“Essas coisas, que proferem todos os ministros das leis, me parecem assaz fortes. Sei que não se reconhecem dois poderes nem na China, nem na Índia, nem na Pérsia, nem em Constantinopla, nem em Moscou, nem em Londres, etc... Mas fio-me em vós, minha mãe. Nada escreverei que não me seja ditado por vós.”Respondeu-lhe a Razão:— Bem vês, minha filha, que eu sinto mais ou menos as mesmas coisas, e muitas outras Tudo isso demanda tempo e reflexão. Sempre fiquei muito contente quando, em meio às minhas dores, consegui parte do alívio que desejava.“Não te lembras do tempo em que quase todos os reis da terra, estando em completa paz, se divertiam em decifrar enigmas, e em que a bela rainha de Sabá ia em pessoa propor logogrifos a Salomão?”— Sim, minha mãe; bom tempo aquele, mas não durou muito.Pois bem – tornou a mãe, – este é infinitamente melhor; só se pensava então em mostrar um pouco de espírito; e vejo que há dez ou doze anos os europeus se vêm empenhando nas artes e virtudes que abrandam a amargura da vida. Parece que em geral se combinaram para pensar mais solidamente do que o haviam feito durante milhares de séculos. Tu, que nunca pudeste mentir, dize-me que tempo terias preferido ao presente para morar na França.— Tenho a reputação – respondeu a filha – de gostar de dizer coisas assaz duras às pessoas entre as quais me encontro; mas confesso que só tenho a louvar o tempo presente, a despeito de tantos autores que só louvam o passado.“Devo atestar à posteridade que foi nesta época que os homens aprenderam a garantir-se de uma doença terrível e mortal, tornando-a menos funesta na transmissão; a restituir à vida aqueles que a perdem por afogamento; a governar e desafiar ao raio; a prover ao ponto fixo que em vão se deseja do ocidente ao oriente. Muito mais se fez em moral. Ousou-se pedir justiça às leis contra leis que haviam, condenado a virtude ao suplício; e essa justiça foi algumas vezes obtida. 0usou-se, enfim, pronunciar o nome da tolerância.”— Pois bem, minha filha, gozemos destes belos dias; fiquemos por aqui, se durarem; e, se vierem tempestades, voltemos a nosso poço.
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November 28 2009, 1:35am | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
HUMOR: Em estágio para Copenhaga V
http://dererummundi.blogspot.com/2009/11/humor-em-estagio-para-copenhaga-v.html
(clique par ampliar)Concorrência desleal:
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November 28 2009, 1:27am | Comments »
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João Marques passando os olhos por... blog.laopiniondemalaga.es
Gritos silenciosos
http://blogs.laopiniondemalaga.es/eladarve/2009/11/28/gritos-silenciosos/
Las otras víctimas 'mortales' de la violencia de género: las muertas en vida. El pasado día 25 de noviembre se celebró el Día Internacional contra la violencia de género. Son ya cincuenta las mujeres que han fallecido en España en lo que va de año, víctimas de esta lacra social. ¿Y las que están muertas en vida? Atroz terrorismo contra el que debemos luchar. “Gritos silenciosos” es el significativo título del libro que escribió (bajo el pseudónimo de Paula Zubiaur) la protagonista de una terrible historia de malos tratos. El subtítulo pone al lector en el camino de su contenido: “El terrible testimonio de una mujer en un matrimonio aparentemente perfecto”. La intención de la autora se manifiesta con claridad en las primeras páginas: “Quiero que los lectores comprendan cómo se siente una mujer maltratada, que vean cómo con una apariencia de normalidad, incluso con prestigio profesional y personal dentro de su círculo, un hombre puede tener un comportamiento en la intimidad propio de asesinos de la peor calaña”. Estamos ya acostumbrados (qué horrible efecto de la rutina, adormecer la sensibilidad ante la tragedia) a leer en la prensa noticias de esta naturaleza: mujer estrangulada, mujer acuchillada, mujer golpeada, mujer arrojada por la ventana, mujer ahogada, mujer asesinada, mujer violada, mujer rociada con gasolina… Cientos de casos, miles de casos. Este es un fenómeno secular, terrible. Y es el fruto del machismo, de la sociedad patriarcal, de la cultura que considera a la mujer un simple objeto. La aportación del libro de Paula Zufiaur es que permite conocer desde dentro la psicología del torturador y de la maltratada. Una simple noticia no comunica más que el horror, pero no sus mecanismos más sutiles, sus engranajes internos. Mientras lees con asombro, dolor e indignación el sobrecogedor relato de esta víctima, vas descubriendo los ocultos e inexplicables mecanismos que sostienen el comportamiento de ambos. El torturador es, en este caso, hijo de un maltratador. Tiene una personalidad posesiva, tortuosa, obsesiva, atormentada, violenta. Quiere hacer de su mujer “un ser perfecto”, “una mujer diez”. Y pretende conseguirlo a través de palizas. Lo hace, dice cínicamente, “por su bien”, “por su perfeccionamiento”. Luego se arrepiente, pide perdón, colma a su mujer de regalos, le declara un amor indestructible, absoluto y eterno. El maltratador es una persona con éxito, buen amigo, buen jefe. Es un lobo con piel de cordero. La terrible situación de la víctima es que tiene que dormir con su enemigo, con su verdugo, con su asesino. Ella se siente metida en una trampa mortal. No puede salir por miedo, por la esperanza de que alguna vez cambie, por vergüenza, por la presión social de una familia y de una sociedad hipócrita y de una moral que insta al martirio para no romper un vínculo que se convierte en una soga estranguladora. Y luego está el silencio de quienes son testigos de esa tragedia, la propia familia que no quiere que caiga sobre ella ese baldón, los médicos que curan las heridas sin preguntar, los amigos que no saben sospechar ante tantas caídas fortuitas, tantos accidentes en las escaleras, tantos golpes con las puertas, tantos cortes con cuchillos… Y los asesores (religiosos en este caso) que aconsejan mantener el matrimonio unido por el bien de los hijos, porque no hay que romper lo que Dios ha unido… Es curioso observar la estrategia del macho para la conquista. En el momento que considera que ya “es suya”, en el momento en que ella quema las naves, que ya no tiene vuelta atrás, el torturador se quita la careta. ¿Cómo puede sentirse una mujer que sufre la primera paliza en la noche de bodas? ¿Cómo puede sentirse cuando el retroceso está cortado y por delante sólo tiene el abismo? El paso de las amenazas a la adulación, de las palizas a los regalos, de la violencia a la ternura, de la brutalidad a la dulzura es casi incomprensible. Pero real como es real el cuerpo, la casa, el trabajo, los hijos y la vida. Leyendo el libro puedes llegar a entender cómo una persona vive años y años (en este caso dieciséis interminables años) sumida en un infierno, sin fuerzas, sin coraje, sin iniciativa para abrir la puerta y huir. No es fácil entenderlo desde fuera. Lo que hace la autora es dejarnos entrar en su mente y comprender los ocultos resortes que la han hecho sumirse en la sumisión y en el silencio. De ahí a impedir que la mujer estudie, que la mujer se relacione, que la mujer tenga autonomía, a la patología de los celos, a la violencia más cruel, hay un paso. Si, además, la mujer no tiene recursos para valerse económicamente por sí misma, si no es capaz de sobrevivir en libertad, si cuando se rebela es considerada una mala madre o una pésima esposa, la solución se aleja hasta hacerse inalcanzable. Y, lo que es peor, si ella misma piensa que ese es su papel, que las cosas han sido y deben ser así, que la naturaleza la ha hecho inferior, la solución es imposible. No hay mayor opresión que aquella en la que el oprimido mete en su cabeza los esquemas del opresor. ¿Dónde está la raíz de esta actitud que se repite en tantos casos que se explicitan y en tantos otros que mientras escribo y ahora mientras lees siguen ocurriendo? En la actitud sexista, en la consideración de la mujer como un objeto de disfrute del varón, en una cultura androcéntrica que lo impregna todo y que ha hecho sentir a la mujer como un ser inferior, como una propiedad. El título del libro es elocuente. Gritos silenciosos. O, más bien, gritos inaudibles. Son poderosos, agudos, aterradores. Pero no los queremos oír. En realidad, no son gritos silenciosos o inaudibles, son gritos silenciados. Silenciados por la indiferencia, por el egoísmo, por la torpeza, por la rutina, por la maldad. Cuando la garganta se rompe por un cuchillo o por un estrangulamiento, entonces nos sentimos estremecidos. Pero entonces ya es tarde.
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November 27 2009, 10:00pm | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
LUTANDO COM OS CÉPTICOS
http://dererummundi.blogspot.com/2009/11/lutando-com-os-cepticos.html
O New York Times, pela pena do médico pediatra Darshak Sanghavi, publica uma recensão do livroDENIALISMHow Irrational Thinking Hinders Scientific Progress, Harms the Planet, and Threatens Our LivesBy Michael Specter294 pp. The Penguin Press. $27.95que começa assim:"The optimistic view of science is that the theories advanced with its methods will have self-evident appeal to an educated public. Why, then, do people so often behave unscientifically? A sitting congressman claims he’s seen a U.F.O.; a former Playboy model insists, against overwhelming evidence, that childhood vaccines cause autism; Las Vegas vacationers expect to beat the casinos; former British Prime Minister Tony Blair treats his children with homeopathic remedies."Ler o resto aqui.
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November 27 2009, 4:47pm | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
TOP 5 DOS LIVROS DE CIÊNCIA NOS EUA DE 2009
http://dererummundi.blogspot.com/2009/11/top-5-dos-livros-de-ciencia-nos-eua-de.html
O New York Times acaba de publicar a sua lista dos 100 livros mais notáveis do ano. Desses só cinco são de ciência:'The Age of Entanglement: When Quantum Physics Was Reborn'By LOUISA GILDER Gilder’s book brings the reader into a mix of ideas and personalities, which she handles with verve. (Knopf, $27.50.) 'The Age of Wonder: How the Romantic Generation Discovered the Beauty and Terror of Science'By RICHARD HOLMES The twin energies of scientific curiosity and poetic invention pulsate through this study of “the second scientific revolution.” (Pantheon, $40.) 'Cold: Adventures in the World’s Frozen Places'By BILL STREEVER From the physics of absolute zero to the cold-resistant gluttony of small birds, Streever reports on the extreme regions of low temperatures and the scientists who love them. (Little, Brown, $24.99.) 'The Invention of Air: A Story of Science, Faith, Revolution, and the Birth of America'By STEVEN JOHNSON A satisfying genre-blending consideration of Joseph Priestley and his fertile ideas. (Riverhead, $25.95.) 'The Strangest Man: The Hidden Life of Paul Dirac, Mystic of the Atom'By GRAHAM FARMELO The quantum pioneer had an almost miraculous apprehension of the physical world, coupled with an innocent incomprehension of other people. (Basic Books, $29.95.)
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November 27 2009, 4:43pm | Comments »




