“A História leva o seu tempo. A História faz memória” (Gertrude Stein, 1874-1946).Num tempo em que o ensino privado com contrato de associação é, por vezes, havido como exemplo capaz de dar ao país um ensino de maior qualidade relativamente ao ensino oficial deverá ser acolhido como acto de inteira justiça a homenagem que decorre em Coimbra ao ex-Liceu Normal D. João III, hoje Escola Secundária de José Falcão. Em nome da qualidade de ensino ministrado nas suas salas de aula se pronunciaram, em conhecimento de causa, nomes de grande vulto da academia universitária, da política e da vida económica desta cidade das margens do Mondego com projecção em fronteiras nacionais e mesmo para além delas.Que seja perdoada, portanto, à minha humilde pessoa o poder deslustrar o brilho desses testemunhos com a opacidade da minha prosa que tem o possível mérito de ser ditada por quem aí exerceu a docência logo a seguir ao 25 de Abril. Ou seja, numa época conturbada em que a política educativa cedia lugar aos partidos políticos de esquerda, mais ou menos radicais, que disputavam entre si o rumo a tomar pelos então liceus num país em plena convulsão revolucionária.Regressado de Moçambique em 75, nesta escola secundária ingressei como professor efectivo (como então se dizia) numa altura em que as RGA’s se sucediam em prejuízo das aulas e do normal funcionamento de uma casa em que a política era a cartilha que substituía “Os Lusíadas” que cantava a glória de um povo e da sua gesta em opróbrio para com o seu festejado autor. Desse tempo, de justiça me parece prestar homenagem póstuma ao timoneiro dessa escola em águas turbulentas que, apesar de conotado com o PCP, soube através de fino e cordial trato e espírito de bem servir os interesses da educação conciliar posições e interesses políticos antagónicos. Refiro-me ao Dr. Ivo Cortesão a quem fiquei reconhecido pelo facto de para eu ser nomeado, em comissão de serviço, docente da Universidade do Porto estar essa condição dependente da autorização da minha escola de origem. Autorização que não foi só dada como se fez acompanhar de palavras elogiosas à minha pessoa que estava longe de comungar das mesmas ideias políticas das suas. Nessa então já Escola Secundária de José Falcão, tive a honra de conviver com uma verdadeira elite de professores cujos nomes me escuso de nomear para não cometer o erro involuntário de omissão por esquecimento ou para não tornar fastidioso a um possível leitor essa listagem. Outros houve, enfim…que serviam os desígnios de uma mediocridades tornando-se prosélitos de um novo estatuto de carreira docente (promulgada por Roberto Carneiro, pressionado por grande número de organizações profissionais docentes) sem sombra de mérito em separar o trigo do joio quer em formação académica, quer em desempenho docente, quer em prestígio meramente individual dos respectivos docentes.E aqui chegado, não posso deixar de suportar as minhas palavras com o facto de anteriormente à sua promulgação o topo da carreira docente ser a letra A para os licenciados, a letra B para os bacharéis e a letra C para os possuidores de habilitação menor. Daqui passou-se, de supetão, para uma nova carreira em que as letras de topo foram substituídas por escalões: 10.º escalão para licenciados e 9.º para bacharéis. Isto é, na expressão popular, em passagem de cavalo para burro, os usufrutuários da letra A regrediram para o 8º e 7.º escalões, se possuidores ou não do antigo exame de estado. Foi atingido por esta demagógica medida em que, segundo Eça, “em Portugal, boa madrinha, todos somos nobres, todos fazemos parte do Estado, e todos nos tratamos por Excelência”, uma personagem de grande humanismo e brilhantíssimo professor de Matemática da Escola Secundária José Falcão, ex-reitor do Liceu D. Duarte de Coimbra, o Dr. Álvaro da Silveira, que atingiu o limite de idade de aposentação quando cumpria a via sacra que o levaria ao 10.º escalão, mas que a data de nascimento do bilhete de idade interrompeu dando-lhe, para além da diminuição do vencimento de aposentação, o grande desgosto de quedar-se no mesmo escalão que antigos diplomados com o curso do antigo magistério primário ungidos pela graça de terem nascido, por vezes, apenas alguns dias depois dele.Foram, assim, vitimados por esta gritante injustiça verdadeiros heróis, hoje recordados em homenagem promovida pela respectiva direcção, pelo contributo dado para que a Escola Secundária José Falcão de Coimbra tenha sobrevivido a épocas conturbadas como estas e continue na senda que lhe deu o justo destaque que ora se comemora com o devido e merecido relevo.Nesta efeméride foram percorridos e recordados esses tempos cobertos por 75 jubilosos anos de vida para que permaneçam bem vivos porque, como escreveu Ugo Belfi, e foi aqui recordado em tempos por Eugénio Lisboa, “as memórias são como as pedras: o tempo e a distância corroem-nas como ácido”.